domingo, 15 de novembro de 2015

Onde se escondem os finais felizes (?)

Ilustração: Éff (@coisailustrada)
“AH!”, exclamou ele fechando abruptamente o livro. Em seguida lançou o objeto violentamente contra a parede. A publicação de capa dura em vermelho vívido estatelou-se no chão, caindo aberta de bruços. Ele estava cansado. Cansado de servir de plateia para todas aquelas histórias de amor. Levantou-se da cama, começou a andar em círculos pelo quarto apertado. Gotas de suor se formavam em seu rosto. Claustrofobia líquida escorrendo por sua pele morena. Respirou fundo. Abriu a porta do quarto e andou em direção ao banheiro. Girou a trava da torneira e deixou que a água escorresse por alguns segundos. Juntou as mãos em forma de concha embaixo do jato e jogou o líquido gelado no rosto. Repetiu a ação. Ainda com o rosto molhado fitou seu reflexo no espelho. Longos segundos sem saber o que pensar. Uma confusão de ideias, sentimentos e meias palavras que faziam jus a seu cabelo. Uma bagunça. Havia envelhecido, é indiscutível. Por fora. Por dentro. Reparou nas marcas de expressão se formando. Nas olheiras que denunciavam as noites inquietantes. Reparou no vazio do olhar e no grande ponto de interrogação que podia enxergar em sua testa. Seria isso? É assim que se enlouquece? Secou o rosto. Voltou ao quarto, trancou a porta, deitou na cama. Cogitou acender um baseado. Desistiu por considerar que a mãe sentiria o cheiro e viria incomodá-lo com perguntas. Tudo menos perguntas. Sem questionamentos, por favor. Ficou deitado, seminu, olhando para o teto. Contemplando o vazio. Apreciando o silêncio. O que aconteceu? Era para ser simples. Como no livro em que acabara de ler. Como nos filmes que amava assistir. Como nos planos que levara tanto tempo para estruturar. Onde está? Onde se esconde a felicidade? Que se camufla tão bem que parece não querer ser encontrada. Onde está? Onde mora a felicidade? Que mais parece estar num passado inexistente que um futuro inesperado. Oh, fado! Vamos, responda! Onde está? Onde? Sentiu-se idiota por fazer perguntas para as quais sabia que ninguém tinha uma resposta. O que, afinal, esperava ouvir? Conteve corajosamente as lágrimas que ameaçavam cair. Respirou fundo em busca de algo mais significativo que o fôlego. A razão. Mais calmo, reparou no livro jogado no canto da parede. Levantou-se e foi até ele. Pegou-o delicadamente como quem pega um animalzinho machucado. Fechou o objeto e dirigiu-se à escrivaninha. Colocou-o no topo de uma pequena pilha no lado esquerdo do móvel. Lá. Naquele cantinho. No único lugar onde tinha certeza de que se escondiam os finais felizes. O resto lhe parecia mito. Tão lindo quanto distante. Tão essencial quanto impalpável. Tão... tão. Foi até o interruptor, apagou a luz do quarto e voltou para a cama. Colocou os fones de ouvido e deixou que uma balada lenta da Kelly Clarkson lhe colocasse para dormir. Pouco tempo depois, envolto pelo conforto do breu absoluto, caiu em sono profundo.


2 comentários:

  1. maravilhoso .estou apaixonado por esse blog .é muito,muito,muito bom .

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    1. Olá Walter, desculpe a demora em responder. Fico feliz em ler isso, muito obrigado pelo carinho!

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