domingo, 18 de outubro de 2015

Quase estranho

Foto:  Hallucinate Up
Lá estava ele, a dois metros de mim. De costas, mas eu reconheceria aqueles cabelos bagunçados e aquela tatuagem na nuca em qualquer lugar. Lá estava ele, parecia atrasado. Pedia licença por entre a multidão e cavava um caminho escadaria acima. Eu estava bem atrás. Acompanhava-o com meus olhos e meus passos acelerados. Não queria alcançá-lo. Mas também não queria perdê-lo de vista. Tem sido assim há um longo tempo. 
Ele não virou uma vez sequer. De costas foi sendo tragado pela multidão. De costas se foi. Se perdeu. Não me viu, tenho certeza. Não falou comigo. Não perguntou como estou. Não reparou em meu corte de cabelo novo. Não quis saber da faculdade. Nem do que ando fazendo da vida. Não me viu.
Mas eu o vi, tenho certeza. Quis falar com ele. Perguntar como está. Reparar no mesmo corte de sempre. Saber da faculdade. E o que anda fazendo da vida. Eu o vi. O vi mas não fiz nada. Deixei que fosse.
E fiquei ali sentado. No banco da estação de metrô. Fitando o vazio. Desenhando todo o diálogo da cena que não existiu. O constrangimento. A felicidade. As dúvidas que persistem. O que o tempo ainda não apagou. Ele ajeitando o cabelo. Aquele sorriso de canto de boca. O olhar que eu retribuiria. Aquele que já valeria todas as conversas não tidas. Aquele. É aflitivo pensar que daqui em diante todas as melhores lembranças de terei dele serão de momentos que não existirão. É aflitivo pensar que preciso recorrer a um passado fantasioso para enxergar possibilidades de um futuro colorido. É aflitivo pensar...
Naquele momento fui tomado por um vazio que não caberia explicar em palavras. Saquei meu bloco de anotações e minha caneta. Só queria resenhá-lo. Cada mísero centímetro daquele corpo. Cada gesto involuntário. Cada mania. Gostos. Desgostos. Medos e prazeres. Num esforço de colocá-lo inteiro em versos só para ter certeza que o tempo jamais apagaria o que já foi tão meu. Tão belo. Tentando ser capaz de descrevê-lo minunciosamente só para ter guardada a lembrança de alguém que talvez nem tenha existido de verdade. De alguém que hoje é apenas mais um de costas na multidão. Alguém que conheço bem demais para tratar como desconhecido. Nos tornamos indiferentes. Eu, teu quase ninguém. Você, meu quase estranho.

Sendo assim... querido quase estranho, isso ainda é sobre você.

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