segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Aqueles dois

antes de começar, talvez queira ler isso aqui.

(15h26)
Desculpe. Claro, entre. Deixe eu pegar uma toalha para você se secar... Aqui está. Tem sido um dezembro chuvoso em São Paulo. Coloque essa bolsa ali. Não, estou bem. Só estou... surpreso. Quando você... Por que não me... Sim, termine de se secar. Vou preparar um café para nós.

(15h50)
Açúcar? Sim, está amargo. Claro que me lembro. Quando você... quando voltou? Da última vez que tive notícias suas soube que estava em algum lugar das Cordilheiras Chilenas. Carol havia perdido o contato contigo. Estava furiosa por você "ter se esquecido dela". Sim, eu sei que não se esqueceu. Deve explicações a ela. Depois vocês conversam. Secou direito esse cabelo? Vai ficar resfriado. Desculpe, sabe como sou. Essa música? When We Were Young. A nova da Adele. Sim, música de velho. Tenho alma de velho Carlos, sabe disso.

(16h04)
Por que bateu em minha porta na última semana do ano, debaixo duma tempestade de verão, depois de ter passado dois anos sumido? Não respondi Carlos, não respondi suas mensagens e nem abri suas cartas. Acreditei que nossa última conversa havia sido definitiva. Não, não estou magoado. Não mais. Só não entendo. Nunca entendi direito. Ted está latindo, deve estar com medo dos trovões. Espere um momento.

(16h16)
Pronto. Ele está mais calmo. O que é isso? Para mim? Um poncho! Claro que gostei. Acho que ficou um pouco grande. Nada que uns retoques não deem jeito. Ficou bom? Obrigado. Pare, já sei onde essas palavras doces irão levar.

(16h27)
Não entende? Você não pode simplesmente pedir pela volta de um passado que escolheu não viver! Dane-se se eu disse que não estava magoado. Você simplesmente sumiu. Entrou naquele carro rumo ao desconhecido como se o que tivesse ficado para trás fosse mero detalhe! Nós éramos. Mas não somos mais.  Não somos mais aqueles dois. Não faça isso comigo. Não. Deixe-me chorar. Me solte. Me... Carlos.

(21h44)
Você ainda tem o mesmo cheiro de tabaco. Teu hálito ainda exala menta. Está ficando com entradas na testa. O que foi essa cicatriz no braço? 

(21h56)
Apenas me diga se encontrou o que foi buscar. Voltou porque sabia que eu estaria aqui. É isso sim! Nisso concordamos. Foi um belo idiota! Aquela vida só existe nos livros que você lê. Fico aliviado que tenha percebido isso. Talvez estejamos começando a nos entender. Não, não me envolvi seriamente com ninguém. Só uns casos corriqueiros. Eu sai da revista. Estava vendendo minha alma por uma miséria. Estou terminando meu livro. De jeito nenhum! Está uma merda. Já recomecei umas cinco vezes e estou prestes a recomeçar a sexta. Outro dia te conto por cima do que se trata. Por hora não quero falar disso.

(22h18)
Sim, claro que coloco! Alguma música em especial? Aquela?! Não disse que era música de velho? Sim, você pode mudar de opinião...

(22h26)
“Let me photograph you in this light in case it is the last time. That we might be exactly like we were before we realized we were sad of getting old. It made us restless, it was just like a movie, it was just like a song when we were young”.
(22h30)
É verdade, uma das mais belas letras de músicas que já vi. No que estou pensando? Envelhecemos Carlos. Não somos mais aqueles dois jovens sonhadores. Não somos mais aqueles dois jovens capazes de apagar as marcas dum coração partido e recomeçar como se nada tivesse acontecido. Você voltou. A essa altura nenhum dano poderá ser cicatrizado. É um pouco assustador, não acha? Não faça promessas. Não tente consertar. Sem expectativas, sem grandes anseios. Exatamente como quando éramos jovens. Aqueles dois garotos das fotografias que você levou consigo. Ao menos a parte deles que o tempo ainda não apagou.

(02h43)
Perdi o sono e fiquei vendo você dormir. Parou de chover. Venha até a janela. Olhe como o céu está bonito. Aquela lua merece ser contemplada. Perdoo Carlos, eu perdoo.

domingo, 15 de novembro de 2015

Onde se escondem os finais felizes (?)

Ilustração: Éff (@coisailustrada)
“AH!”, exclamou ele fechando abruptamente o livro. Em seguida lançou o objeto violentamente contra a parede. A publicação de capa dura em vermelho vívido estatelou-se no chão, caindo aberta de bruços. Ele estava cansado. Cansado de servir de plateia para todas aquelas histórias de amor. Levantou-se da cama, começou a andar em círculos pelo quarto apertado. Gotas de suor se formavam em seu rosto. Claustrofobia líquida escorrendo por sua pele morena. Respirou fundo. Abriu a porta do quarto e andou em direção ao banheiro. Girou a trava da torneira e deixou que a água escorresse por alguns segundos. Juntou as mãos em forma de concha embaixo do jato e jogou o líquido gelado no rosto. Repetiu a ação. Ainda com o rosto molhado fitou seu reflexo no espelho. Longos segundos sem saber o que pensar. Uma confusão de ideias, sentimentos e meias palavras que faziam jus a seu cabelo. Uma bagunça. Havia envelhecido, é indiscutível. Por fora. Por dentro. Reparou nas marcas de expressão se formando. Nas olheiras que denunciavam as noites inquietantes. Reparou no vazio do olhar e no grande ponto de interrogação que podia enxergar em sua testa. Seria isso? É assim que se enlouquece? Secou o rosto. Voltou ao quarto, trancou a porta, deitou na cama. Cogitou acender um baseado. Desistiu por considerar que a mãe sentiria o cheiro e viria incomodá-lo com perguntas. Tudo menos perguntas. Sem questionamentos, por favor. Ficou deitado, seminu, olhando para o teto. Contemplando o vazio. Apreciando o silêncio. O que aconteceu? Era para ser simples. Como no livro em que acabara de ler. Como nos filmes que amava assistir. Como nos planos que levara tanto tempo para estruturar. Onde está? Onde se esconde a felicidade? Que se camufla tão bem que parece não querer ser encontrada. Onde está? Onde mora a felicidade? Que mais parece estar num passado inexistente que um futuro inesperado. Oh, fado! Vamos, responda! Onde está? Onde? Sentiu-se idiota por fazer perguntas para as quais sabia que ninguém tinha uma resposta. O que, afinal, esperava ouvir? Conteve corajosamente as lágrimas que ameaçavam cair. Respirou fundo em busca de algo mais significativo que o fôlego. A razão. Mais calmo, reparou no livro jogado no canto da parede. Levantou-se e foi até ele. Pegou-o delicadamente como quem pega um animalzinho machucado. Fechou o objeto e dirigiu-se à escrivaninha. Colocou-o no topo de uma pequena pilha no lado esquerdo do móvel. Lá. Naquele cantinho. No único lugar onde tinha certeza de que se escondiam os finais felizes. O resto lhe parecia mito. Tão lindo quanto distante. Tão essencial quanto impalpável. Tão... tão. Foi até o interruptor, apagou a luz do quarto e voltou para a cama. Colocou os fones de ouvido e deixou que uma balada lenta da Kelly Clarkson lhe colocasse para dormir. Pouco tempo depois, envolto pelo conforto do breu absoluto, caiu em sono profundo.


domingo, 18 de outubro de 2015

Quase estranho

Foto:  Hallucinate Up
Lá estava ele, a dois metros de mim. De costas, mas eu reconheceria aqueles cabelos bagunçados e aquela tatuagem na nuca em qualquer lugar. Lá estava ele, parecia atrasado. Pedia licença por entre a multidão e cavava um caminho escadaria acima. Eu estava bem atrás. Acompanhava-o com meus olhos e meus passos acelerados. Não queria alcançá-lo. Mas também não queria perdê-lo de vista. Tem sido assim há um longo tempo. 
Ele não virou uma vez sequer. De costas foi sendo tragado pela multidão. De costas se foi. Se perdeu. Não me viu, tenho certeza. Não falou comigo. Não perguntou como estou. Não reparou em meu corte de cabelo novo. Não quis saber da faculdade. Nem do que ando fazendo da vida. Não me viu.
Mas eu o vi, tenho certeza. Quis falar com ele. Perguntar como está. Reparar no mesmo corte de sempre. Saber da faculdade. E o que anda fazendo da vida. Eu o vi. O vi mas não fiz nada. Deixei que fosse.
E fiquei ali sentado. No banco da estação de metrô. Fitando o vazio. Desenhando todo o diálogo da cena que não existiu. O constrangimento. A felicidade. As dúvidas que persistem. O que o tempo ainda não apagou. Ele ajeitando o cabelo. Aquele sorriso de canto de boca. O olhar que eu retribuiria. Aquele que já valeria todas as conversas não tidas. Aquele. É aflitivo pensar que daqui em diante todas as melhores lembranças de terei dele serão de momentos que não existirão. É aflitivo pensar que preciso recorrer a um passado fantasioso para enxergar possibilidades de um futuro colorido. É aflitivo pensar...
Naquele momento fui tomado por um vazio que não caberia explicar em palavras. Saquei meu bloco de anotações e minha caneta. Só queria resenhá-lo. Cada mísero centímetro daquele corpo. Cada gesto involuntário. Cada mania. Gostos. Desgostos. Medos e prazeres. Num esforço de colocá-lo inteiro em versos só para ter certeza que o tempo jamais apagaria o que já foi tão meu. Tão belo. Tentando ser capaz de descrevê-lo minunciosamente só para ter guardada a lembrança de alguém que talvez nem tenha existido de verdade. De alguém que hoje é apenas mais um de costas na multidão. Alguém que conheço bem demais para tratar como desconhecido. Nos tornamos indiferentes. Eu, teu quase ninguém. Você, meu quase estranho.

Sendo assim... querido quase estranho, isso ainda é sobre você.

domingo, 6 de setembro de 2015

Não era eu

foi assim que terminou.

a porta batendo
e as malas rolando a escada
você entrando no carro
eu aqui na sacada
teu ego acelerando sem rumo
meu íntimo contemplando o vazio
despido, ferido, imóvel
sentindo a pele arder de frio
sem questionar motivo
nem nomear culpado
antes de ter um começo
ao fim estava fadado
não acredito em tempo
como mediação
nem fórmula que trate
o mau feito ao coração
habito a carcaça intacta
de feição impenetrável
aquela que dentro chora
um afora impermeável
lutando pela virtude
de desabrochar em flor
sobreviver à tristeza
para morrer de amor
proclamando em frases feitas
o que espero lhe ver encontrar
um motivo incontestável
que valha o teu ficar
estarei aqui parado
a espera do seguir
reunindo o necessário
para então admitir
que nosso futuro planejado
não planejava existir
onde está a coragem
para vir a aceitar
que nem se os caminhos fossem outros
você cogitaria ficar
que nunca fiz nada da vida
que não fosse te adorar
logo eu, logo eu, logo eu
que percebi tarde demais
que nessa transa a dois
só você fodeu
que esse complexo de solidão
sempre foi mais teu
que a inspiração dos seus versos
não era eu, não era eu, não era eu
e que teu amor
nunca foi meu
nunca foi
foi assim
foi assim que...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Aquilo que não vai me ouvir dizer

Quando teus olhos dispersos
encontram meus olhos cansados
é como se a alma dos meus
saltasse
para nos seus descansar.
Quando teus lábios molhados
encostam em meus lábios rachados
é como se o gosto do teu beijo
pudesse
fazê-los amaciar.
Quando fala que vem
a alegria reverbera
vou para a janela
sorridente a te esperar.
Quando avisa que não vem
maldita seja a espera
o coração se desespera
por ter se acostumado a te sentir chegar.
Estou viciado em você, moreno
seja meu doce
serei teu pequeno
e fazemos assim
até cansares de mim.
Estou amando você, moreno
dum jeito leve, sereno
sem cobranças nem planos
por dias, meses, anos
ou até a chuva lá fora passar.

domingo, 7 de junho de 2015

Lidando com o abstrato

Duvivier certa vez disse que “ao se deparar com a coisa mais bonita do mundo, certifique-se de que é real”. Talvez não tenha sido exatamente isso que ele disse, mas foi algo parecido...

Nasceu sem que eu percebesse. E foi assim, sem eu me dar conta, que cresceu mais e mais. Chegou um momento – e ele sempre chega – que não dava mais para fingir que não existia. Decidi parar de ignorar. Passei a pensar em minha coisa mais bonita do mundo todo o tempo. Falava sobre ela às pessoas, orgulhoso, como um jovem apaixonado. Mas nunca a mostrei, de fato, a alguém. Era MINHA coisa mais bonita. Não me sentia preparado para mostrá-la a você. A ninguém.
Por um tempo minha coisa mais bonita do mundo fez jus ao nome...
Resplandecia.
Reverberava.
Inspirava.
Trazia cor aos meus dias. Me fazia ver algo bom até nas músicas depressivas, nos filmes ruins, nos livros mal escritos e nos dias chuvosos. Tudo era claro como a luz do sol. Tudo era gostoso como bolo de fubá. Tudo era aconchegante como um abraço. Até aquele dia.
Não sei explicar como essas coisas acontecem. Num instante está tudo bem e no outro, pá! não está mais.
Eu olhava para minha coisa mais bonita do mundo e sentia que ela estava esmaecendo, tal qual tatuagem com o passar do tempo. Foi desesperador. A gente nunca quer desapegar do que já aprendeu a conviver. Eu não queria ver minha coisa mais bonita do mundo sumir, assim, na minha frente, e ficar de braços cruzados.
Mostrei ela. Numa atitude de desespero mostrei a todos. Mostrei a você. E supliquei “por favor, me ajudem!”. Mas ninguém respondeu. Ninguém além de mim conseguia ver a coisa mais bonita do mundo. Nem você.
Ela se foi. Naquela tarde de outono do dia 07 de junho, quando a última flor do Jacarandá caiu no quintal, ela se foi. E tudo ficou cinza.
Durante muito tempo fiz do silêncio refúgio. Enquanto eu chorava pelo fim, as pessoas ao meu redor questionavam o porquê das minhas lágrimas. Não queria explicar. Não atendi telefones, não respondi e-mails, parei de abrir a porta. Minha vontade era de sair pelas ruas cobertas de geada e gritar “Ninguém ajudou a salvá-la! A culpa também é de vocês!”.
Mas não fiz isso. A culpa não era deles.
E assim passei aquele inverno.
Ilustração: Ana Oliveira
O coração havia se transformado num campo árido onde nada brotava. O frio parou de invadir minha casa quando decidi não abrir mais as janelas. Dormi. Por um longo tempo.
Não adianta apressar as coisas. Sentimentos são temperamentais. O abstrato é indecifrável.
Foram necessários muitos Malboros tragados e doses de Martini goela abaixo para que algo acontecesse aqui dentro. O arrastar das chinelas pelos corredores vazios fazia parte do rito. Aquele meu pijama preto terminava de dar o tom fúnebre. Foi o ápice do drama. Sim, era drama. Sempre foi. Sempre fui.
Mas acabou. Como quem um dia acorda e percebe que não há mais o que chorar. Como quem um dia entende que...
a vida continua.
Costurei os retalhos dos sentimentos que sobraram e fiz deles uma colcha para as noites frias. Arreganhei as cortinas para que a luz entrasse. Abri as janelas da alma e os ventos fortes do sul sopraram. Começou a ventilar.
O sopro gélido levou consigo as cinzas que haviam pousado sobre a mobília, mas o que restou da minha coisa mais bonita permaneceu. Tudo terminou de maneira desastrosa. Eu sei. Mas agora está bem, estou bem. Finalmente consigo ver o lado bom disso. Sim. Voltei a ver a luz.
Eu sei que nunca mais a terei novamente. E sei também que as coisas não acontecem duas vezes da mesma maneira. Foi um erro meu não duvidar da veracidade. Mas nesse momento não quero questionar se minha coisa mais bonita do mundo foi ou não real. Isso não mudaria nada.
Não sei explicar como essas coisas acontecem. O abstrato é indecifrável. Num instante está tudo ruim e no outro pá! não está mais. Tenho uma capacidade absurdamente grande de lidar com o frio. Assim como meu Jacarandá, que está mais florido do que nunca. Ciclos da natureza.
Minha coisa mais bonita do mundo se foi. Mas, como tudo na vida, deixou marcas e ensinamentos. É um constante aprendizado. Continuarei caminhando. Nem que seja para descobrir coisas que, de certa forma, decepcionam. Assim como o cigarro tragado. Assim como a garrafa vazia. O amor também deixa consequências. Também acaba.
Lidemos com isso.

domingo, 12 de abril de 2015

Corda bamba

Não me olhe assim
nós dois sabíamos que esse momento chegaria
tanto tempo caminhando 
por uma corda bamba
cedo ou tarde
ela iria se romper.
talvez sejamos do tipo 
que foi feito para ceder
quem poderá dizer?
preciso de se distancie
preciso me distanciar.
conte até três
e solte minha mão
não se preocupe comigo
apenas vá
não insista
não negue
nós dois sabíamos
que iria acontecer
questão de tempo.
quem poderá entender?
alguém precisava fazê-lo
você não teria coragem 
eu me sacrifico.
então contarei até três
e soltarei sua mão
peço que confie
confie e vá
não resista
não diga que fica
não diga que dói
apenas vá
Ou irei eu.

terça-feira, 10 de março de 2015

Gravidade

é, eu sei
querem cortar minhas asas
não consigo viver sem voar
mas estou cansado de fugir.
você tem razão
nada é mesmo assim
tão definitivo
nem amor
nem dor
nem nada.
vai sim,
vai ficar tudo bem
quando terminarem de cortar
vai ficar tudo bem
por favor
avise mamãe
que talvez eu chegue
a tempo do jantar.

só preciso
só preciso de 
gravidade
para assentar a alma
gravidade
para aquietar o coração
oh, gravidade
para atingir a calma
gravidade
para tocar o chão.
oh, gravidade
oh, gravid...
oh, grav...
oh, gr
oh.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

A forma da loucura


Eu sequer deveria ter saído de casa. Deveria ter ouvido quando Alice disse que eu precisava descansar. Deveria ter colocado a playlist nº 3 pra tocar. E ter adormecido.
Eu não deveria ter deixado que minhas pernas me levassem onde estavam levando. Não era uma boa ideia. Nada de bom poderia acontecer. Eu não deveria ter parado na fila. Nem acendido o cigarro. A porra do cigarro. Mas você me conhece. Não sei a hora de parar.
Foto: Paulo Dias
Eu não deveria ter entrado. Nem aceitado o primeiro gole. Não deveria ter tirado a camisa. Nem virado o segundo gole. Nem o segundo cigarro. Nem o terceiro... 
Não deveria ter permanecido na pista quando aquela música começou a tocar. Madness. Era ensurdecedor. E de repente tudo estava girando. E as pessoas ao meu redor se moviam em câmera lenta. E ele estava lá, lá na frente. Eu não deveria ter me aproximado. Sabia que não poderia ter me aproximado. Mas você me conhece. Não sei quando parar.
Não deveria ter deixado que ele me visse. Que também se aproximasse. Que me tocasse. Era tóxico. Mais do que qualquer cigarro tragado ou bebida que eu pudesse tomar. Porra! Eu não deveria ter deixado. Now, I have finally seen the light. Deixado que ele se aproximasse. And I have finally realized. Que chegasse tão perto. What you need. Lábios sobre lábios. I need your love. Corpo sobre corpo. Sozinhos na multidão. Madness tocando. Por um segundo, uma eterna sequencia de milésimos, foi bom. 
Até que a música acabou. Até que a combinação drinks-cigarrettes parou de fazer efeito. Até que percebi estar dançando sozinho. E beijando os lábios macios da loucura. Eram doces.
E eu não deveria ter ficado parado lá. No meio daquela gente. Exausto. Doído. Mas tudo o que consegui fazer foi chorar. Copiosamente. Vergonhosamente. Chorar pela mediocridade de ver no que você havia me transformado. E sequer se dava conta.
Quando acabou. Quando finalmente não havia mais o que chorar. Quando não fazia mais sentido beber. Nem fumar. Nem dançar. Foi que percebi. Percebi o porque de meu corpo me guiar até aquele lugar. O porque da música. Justo aquela música. Entendi o porquê daquilo tudo. Havia chegado o momento. Era hora de parar.
E desde aquele dia Madness nunca mais tocou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Análise: Big Eyes (Grandes Olhos)

Há sempre muita expectativa por trás de um longa de Tim Burton. O diretor norte-americano conquistou uma legião mundo fora por seus filmes repletos de personagens excêntricos e um toque sombrio. Mas esqueça boa parte do que você pensa que sabe sobre Burton, pois em seu mais recente filme “Big Eyes” (Grandes Olhos), vemos um diretor que topou o desafio de fazer um filme... normal.
A história em questão é o drama biográfico da pintora Margaret Keane, seu marido Walter Keane e a polêmica que envolveu os dois. Margaret é uma das maiores pintoras americanas, ganhou fama na década de 60 por seus quadros de crianças pobres, frágeis e com gigantes olhares tristes. Segundo a história oficial, Walter fez fama e fortuna assinando os quadros da esposa como se fossem seus. Após terminar o casamento, Margaret resolve denunciar o marido e os dois travam uma intensa luta
Foto: Divulgação
 judicial que acaba consagrando Marg como a verdadeira autora dos quadros de Big Eyes. História real que daria um belo filme, não acham? Burton e os roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski também acharam, e fizeram!
Mas não é porque trata-se de um filme biográfico que Burton ocultou totalmente suas características como diretor, pelo contrário, muitas ainda estão lá, mesmo que mais sutis. Vemos na personagem de Margareth, a típica protagonista frágil que tem uma visão muito particular das coisas. Por que pintar retratos de crianças com olhos tão grandes? "Porque os olhos são a janela da alma", responde a personagem. E porque ela via neles a força de um discurso que palavra nenhuma daria conta de transmitir. Sem contar que o diretor aproveita a personagem para mostrar um pouquinho do que era ser uma mulher divorciada na metade do século passado, e como tais mulheres eram vistas pela sociedade. Amy Adams dá o tom exato ao personagem. Aquela voz suave, aqueles olhos frágeis e aquele sorriso encantador constroem uma Margaret Keane pela qual o expectador se dispõe a torcer.  Por outro lado, a atriz não escorrega ao tirar a personagem do perfil de boa moça e transformá-la numa mulher que precisa lutar pelo que acredita.
Por outro lado, o charme, lábia e jeito expansivo que Christoph Waltz entrega a seu Walter Keane faz dele a melhor coisa de Big Eyes em diversos momentos do filme. O embate entre a fragilidade de Amy/Margaret versus a expansividade de Christoph/Walter vão fazendo com que o filme, inicialmente focado no nascimento do relacionamento do casal, tome os contornos de um drama.
Tudo isso nos é entregue regado a uma fotografia deslumbrante,  direção de arte certeira e trilha sonora agradável. Trilha com destaque merecido à Lana del Rey e sua música tema do filme que, apesar de tocar num única cena, aparece no momento em que é necessário.
Big Eyes não é o melhor filme de Tim Burton, talvez porque a vida real não tenha permitido que o diretor fizesse o que sabe fazer de melhor: fantasiar. Mas ainda assim é - sem dúvidas - um filme que merece ser apreciado.

Filme: Big Eyes (Grandes Olhos) EUA/2015
Diretor: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Danny Huston, Terence Stamp
106 minutos.
Avaliação: Bom

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Olhe para o mar

O que está fazendo aqui? Como sabia onde eu estava? Vim ver o mar. Faça silêncio, escute o que ele diz. Não, eu não pretendia voltar. Você não leu meu bilhete? Não faça essa cara, não me lance esse olhar. Não dá mais. Vim ver o mar. Fique quieto, ele quer falar com você também. Sim, eu te
desculpo. Não se preocupe, sei que se arrependeu. Me arrependi também. Daquilo. Das coisas que eu disse. Estava magoado, falei sem pensar. Não posso voltar. Não quero. Olhe para frente querido, veja essa imensidão azul se perder de vista. O chiado? É música. É código. É preciso fazer silêncio. É preciso estar atento. Sim, estou um pouco fora de mim. Embriagado? Totalmente! Bêbado de cansaço. Me solte! Não, eu não vou voltar! Vim ver o mar. Ele tinha coisas para me falar. Escute.
Me deixe ir. Por que você não me deixa ir? Não percebe? É insano. Não posso mais amá-lo apenas com palavras. E você não me deixa amá-lo d’outra forma. Me deixe ir. O mar me chama. Ele me confessou que ainda há uma chance para mim. Talvez ainda haja para você também.
Amar sempre me pareceu coisa de louco. Coisa de quem se atira na água sem medo da correnteza. Não dá. Não quero mais ser aquele que observa tudo da praia. Quero me lançar nesse mar. Mar de amar. Me envolver nos braços dele. Deixar que ele me leve. Atracar num porto seguro. Um dia, quem sabe. Ou flutuar por ai. Por toda a eternidade. Não, por favor não prometa isso. Não diga essas coisas. Sim, você vai suportar. E vai perceber que foi melhor assim. Para nós dois.
Me deixe ir. Por que você não me deixa ir? Não percebe? É tardio. Por favor, corte as amarras. Me deixe voar. Falei com o mar, ele me disse que ainda há uma chance para mim. Talvez ainda haja para você também. Só quero seu bem, meu bem. Mas quero meu bem também. Olhe para o mar. Mar de amar. Ele falou comigo. Confio nele. Confie também.