sábado, 15 de novembro de 2014

É só isso?

Num quarto bagunçado do apartamento trinta e cinco, um resto de café oxidava na caneca amarelada esquecida na escrivaninha.
Meio cigarro tragado em seus últimos suspiros esfumaçantes agonizava no cinzeiro.
Um pôster de Elvis Presley adornava a parede mofada e chamava a atenção pelas bordas rasgadas.
Serviam de decoração para o lugar. Serviam de plateia para o tempo. Contemplavam o ócio dAqueles dois.
Numa noite cálida dum domingo qualquer Ele se virou para Ela, com a interrogação pulsando em seu rosto suado, rompendo o silêncio que imperava no local e perguntou:
“É só isso?”
O som de suas palavras ecoou pelo apartamento vazio. Invadiu o quarto, invadiu a sala, invadiu a cozinha, invadiu cada mísero centímetro daquele velho ambiente. E então, a interrogação presente no rosto dele fez despertar nos demais presentes a sede pela resposta.
ilustração: Paulo Dias
A caneca começo a repetir “é só isso?”
A bituca de cigarro começou a repetir “é só isso?”
Elvis mexeu-se no pôster e começou a repetir “é só isso?”
E o eco tornou-se soberano. "É só isso? É só isso?..."
"SIM!", gritou ela irritantemente aliviada.
E a caneca se calou, e a bituca se calou, e o pôster do Elvis se calou. E o apartamento inteiro se calou. A dúvida saltou do rosto dEle e correu pela porta. Encontrando-a trancada se desesperou. Percebeu que a janela estava aberta e aflita se jogou. Se jogou do quarto andar, numa noite cálida de domingo. Era o fim para ela.
A caneca, a bituca, o pôster o e o homem assistiram passíveis ao suicídio dela.
Num tom de voz que unia harmoniosamente frustração e indiferença, Ele se virou para Ela e conclui:
“Ah, que pena”.
“Ah, que pena”, repetiu a caneca na mesa.
“Ah, que pena”, repetiu a bituca no cinzeiro.
“Ah, que pena", repetiu o pôster na parede.
Sabiam o que deveriam ser. Deveriam ser mais que almas cansadas habitando dois corpos nus jogados num colchão duro. Deveriam ser mais que solitários coadjuvantes de uma vida da qual sonhavam protagonizar. Deveriam parar de ficar esperando algo acontecer. Algo que os arrancasse a força daquele cubículo que haviam enfiado suas vidas. Deveriam ser mais tanta coisa que nem se preocupavam em listar. Ficavam ali, servindo de decoração para o lugar. Servindo de plateia para o tempo.
Apagaram as luzes, viraram-se em sentidos opostos na cama e foram dormir.
Era só aquilo. Que pena.

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