domingo, 23 de novembro de 2014

Análise: Boyhood - Da infância à juventude

Filmado ao longo de doze anos, filme transita entre ficção e realidade de forma primorosa


"As pessoas dizem que devemos curtir o momento.
Eu fico pensando se na verdade não é o contrário,
se o momento é que deveria curtir a gente." (Boyhood)
Um filme que já era sensação antes mesmo de estrear, esse é Boyhood. A curiosidade permeava o imaginário de quem ouvia falar sobre o projeto - sem dúvidas ousado - do diretor Richard Linklater. A proposta era contar a história do garoto Mason (Ellar Coltrane) de seus seis aos dezoito anos. Até ai nada excepcional, exceto pelo fato de que Linklater quis manter o elenco original ao longo de todo o filme. A única maneira de fazer isso era esperando o tempo passar. E foi isso que o diretor fez. Cerca de três dias por ano, ao longo de doze anos, o diretor reunia seu enxuto elenco para as gravações. O resultado é um realismo impressionante que transcende a aparente simplicidade do roteiro.

O filme acompanha o crescimento de Mason Jr. e sua relação com seus familiares. Os pais, Mason (Ethan Hawke) e Olivia (Patrícia Arquette) se divorciaram pouco tempo após o nascimento de Mason Jr. No meio da conflituosa relação dos dois, o jovem Mason vai crescendo e enfrentando seus próprios demônios: dificuldade em se relacionar com a irmã Samantha (Lorelei Linklater), problemas com os parceiros da mãe, entrada na adolescência, primeiro amor, sexo, drogas e a escolha da profissão. "Eu quase nunca me sinto a vontade para verbalizar meus sentimentos. Palavras não são o suficiente, entende?", confessa o rapaz em certo ponto do filme. Não preciso nem dizer que o fato de o ator crescer com o personagem só torna tudo ainda mais real. Ethan e Patricia também merecem elogios por se permitir envelhecer na frente das câmeras. Sem dúvidas, não é um desafio que muitos topariam.

Boyhood acabou se transformando em mais que um filme de ficção, virou quase um documentário. E o caráter documental está presente em cada detalhe da película: cabelo e vestimenta dos personagens, trilha sonora, vícios da geração Y (Harry Potter, Dragon Ball, Música Pop, etc) e modas passageiras, como o movimento Emocore, por exemplo. Fotografia esplêndida e trilha sonora repleta de grandes nomes da primeira década, como Coldplay, Lady Gaga e Gotye, fazem com que a história flua ainda mais naturalmente.  No final das contas temos um belo retrato do que foi a primeira década do século XXI através do rosto e da vida de Mason e sua família.

Antes de Boyhood, o diretor Richard Linklater já era conhecido mundialmente por sua forma peculiar de usar o tempo para contar suas histórias. De 1995 a 2013 produziu os filmes da chamada "Trilogia do Antes", formada pelos filmes Antes do Amanhecer (1995), Antes do Por do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013). Nos filmes, a história de um casal é contada a cada nove anos, respeitando os respectivos anos de cada estreia. A trilogia recebeu aclamação mundial e projetou não só o diretor, mas também o ator Ethan Hawke (que protagonizou as três películas e ajudou a produzir os dois últimos filmes da série). Agora, mais uma vez, Linklater recebe elogios merecidos de crítica e público pelo trabalho desempenhado, e já desponta como um dos favoritos ao Oscar 2015.

O mais impressionante em Boyhood talvez nem seja ver o elenco envelhecer. Talvez seja perceber que a vida é realmente isso, uma história que a gente conta em 166 minutos. Se a intenção do diretor era somente mostrar um bom trabalho que fugisse do tradicional, no final das contas ele apresentou muito mais que isso.

The Black Album

Quando Mason faz quinze anos, ganha de seu pai uma compilação caseira de canções chamada The Black Album (uma alusão ao The White Album, clássico LP dos Beatles). O mais legal é a explicação do pai ao entregar o presente: depois que os Beatles se separaram, os integrantes continuaram talentosos, mas faltava algo a mais. O objetivo do Black Album foi juntar canções dos quatro Beatles em carreira solo e mostrar como elas se completam quando são colocadas juntas. Genial.


Boyhood - Da infância à juventude (EUA/2014)
Direção e Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patrícia Arquette, Lorelei Linklater
Opinião: Ótimo

sábado, 15 de novembro de 2014

É só isso?

Num quarto bagunçado do apartamento trinta e cinco, um resto de café oxidava na caneca amarelada esquecida na escrivaninha.
Meio cigarro tragado em seus últimos suspiros esfumaçantes agonizava no cinzeiro.
Um pôster de Elvis Presley adornava a parede mofada e chamava a atenção pelas bordas rasgadas.
Serviam de decoração para o lugar. Serviam de plateia para o tempo. Contemplavam o ócio dAqueles dois.
Numa noite cálida dum domingo qualquer Ele se virou para Ela, com a interrogação pulsando em seu rosto suado, rompendo o silêncio que imperava no local e perguntou:
“É só isso?”
O som de suas palavras ecoou pelo apartamento vazio. Invadiu o quarto, invadiu a sala, invadiu a cozinha, invadiu cada mísero centímetro daquele velho ambiente. E então, a interrogação presente no rosto dele fez despertar nos demais presentes a sede pela resposta.
ilustração: Paulo Dias
A caneca começo a repetir “é só isso?”
A bituca de cigarro começou a repetir “é só isso?”
Elvis mexeu-se no pôster e começou a repetir “é só isso?”
E o eco tornou-se soberano. "É só isso? É só isso?..."
"SIM!", gritou ela irritantemente aliviada.
E a caneca se calou, e a bituca se calou, e o pôster do Elvis se calou. E o apartamento inteiro se calou. A dúvida saltou do rosto dEle e correu pela porta. Encontrando-a trancada se desesperou. Percebeu que a janela estava aberta e aflita se jogou. Se jogou do quarto andar, numa noite cálida de domingo. Era o fim para ela.
A caneca, a bituca, o pôster o e o homem assistiram passíveis ao suicídio dela.
Num tom de voz que unia harmoniosamente frustração e indiferença, Ele se virou para Ela e conclui:
“Ah, que pena”.
“Ah, que pena”, repetiu a caneca na mesa.
“Ah, que pena”, repetiu a bituca no cinzeiro.
“Ah, que pena", repetiu o pôster na parede.
Sabiam o que deveriam ser. Deveriam ser mais que almas cansadas habitando dois corpos nus jogados num colchão duro. Deveriam ser mais que solitários coadjuvantes de uma vida da qual sonhavam protagonizar. Deveriam parar de ficar esperando algo acontecer. Algo que os arrancasse a força daquele cubículo que haviam enfiado suas vidas. Deveriam ser mais tanta coisa que nem se preocupavam em listar. Ficavam ali, servindo de decoração para o lugar. Servindo de plateia para o tempo.
Apagaram as luzes, viraram-se em sentidos opostos na cama e foram dormir.
Era só aquilo. Que pena.