sábado, 18 de outubro de 2014

Cuidado! Frágil

a velha caixinha de música
já passou de mão em mão
sua estrutura envelhecida
hoje vive da razão
ainda hesita ao ser aberta
pois não sabe se liberta
o que tem a mostrar.
busca um coração amanteigado
para manusear com cuidado
seu conteúdo delicado.
desse modo
se não for para se atentar
deixe-a onde está
quieta, empoeirada
ao lado do sofá.
a caixinha é paciente
aprendeu a esperar
ela sabe que um dia
sua hora irá chegar.
e quando for aberta
a melodia tocará
num suave destrinchar de notas
a bailarina se moverá
girando de felicidade
para nunca mais parar.
larara, larara, larara.

sábado, 4 de outubro de 2014

O que acontecerá depois

Para ser lido ao som de Run, do Snow Patrol. 
Me dê a mão.Vamos juntos rumo à porta do esquecimento.

As regras não foram muito claras. O lugar também não me parece muito nítido. Meia dúzia de móveis velhos, uma luz clara e intensa que me impede de abrir totalmente os olhos. Tudo o que me foi dito é que depois de atravessar aquela porta nada será como antes. O coração poderá, enfim, descansar.
Não me recordo exatamente como vim parar aqui, mas desconfio. Deve ter relação direta com tudo o que aconteceu antes.
Ilustração: Henrique Inhauser
Cinco passos me separam da porta, e de tudo o que me espera depois.
Se eu pudesse mudar algo, talvez tivesse mudado a maneira como tentei me mostrar. Talvez tivesse insistido mais. Mesmo sabendo que de nada adiantaria. Nunca mais usarei a palavra "talvez". Do outro lado não há espaço para incerteza.
Quatro passos.
Um eterno sonhador, era como costumavam me definir. Um amante incorrigível. A espera de um amor que sequer existiu. Pecou por esperar demais. Por que fez isso consigo mesmo? Cansaço. Tanto cansaço...
Quando você for obrigado a encarar a realidade trate de não piscar.
Três passos.
Esta é a última vez que falo disso. Faz parte do trato. Não adianta mais ficar remoendo o que deve ser enterrado. Processo de cicatrização. Logo logo não incomodará mais. 
Dois passos.
Sempre penso melhor quando estou em movimento. Quando era pequeno e algo me chateava, eu gostava de pegar minha bicicleta e pedalar em disparada pelo bairro. Gostava de sentir o vento no rosto, gostava de me sentir infinito. Para onde pedalou aquela criança? Seja lá onde for, deixem-a em paz. Corre garoto, corre!
Um passo.
Aqui estou eu. Mão na maçaneta. A porta se abrirá.
Quando a porta se abrir não olhe para trás. Quando a porta se abrir não fale mais dele. Deixe ir. Quando a porta se abrir se abra também. O que aconteceu antes foi enterrado. O que acontece agora é um caminhar pela linha tênue que separa desesperança de indiferença. O que acontecerá depois é um completo mistério.
Seja lá como for está feito. Você é uma pessoa livre agora. Corre garoto, corre!