segunda-feira, 28 de julho de 2014

Eu não sei mais rimar (a prosa)

Anotações de um ex rimante
(talvez você queira ler a nota no final da página antes  de continuar)


Existem aqueles dias em que você já acorda com saudade, levanta com saudade, vai trabalhar com saudade e volta pra casa com saudade. Estou num desses dias, mais especificamente na parte do "volta pra casa".

nota  nº1: Eu adoraria voltar num daqueles trens igual nos filmes,
com a cabeça encostada na janela e a neve caindo la fora.
Adoraria glamorizar minha saudade.
Mas o que tenho é um ônibus comum, numa noite fria e nada espetacular.
Se serve de consolo: a saudade já é glamurosa por si só.

Prefiro sentar no último banco, encostado na janela. Daqui a  pouco o ônibus lota, isso é o mais perto que chegarei de ter meu canto. Lá fora um casal se beija apaixonado, enquanto outro se abraça para driblar o frio.

nota  nº2: as vezes parece que a vida adora jogar felicidade alheia na nossa cara.
Dizer isso soa egoísta. Melhor guardar para mim.

Algo estranho sobre o processo de esquecer alguém é que só o fato de você lembrar da pessoa já joga seus esforços no lixo. E quanto mais você tenta não pensar, mais pensa.  Um círculo difícil de sair. Geometria enlouquecedora. Estou preso nesse circulo. E o pior é que minha inspiração ficou do lado de fora. Eu não sei mais rimar, e tenho medo de descobrir que só sabia quando rimava sobre você.
Passei as duas últimas semanas tentando compor algo, mas não sai, simplesmente não sai. Sinto-me como um violão desafinado. Só produzo notas erradas, em desarmonia. Você causou tudo isso. E eu detesto o poder que você tem de me desafinar.
As vezes sinto vontade de descobrir o que você anda fazendo, se está melhor que eu...

nota nº3: sinceramente, qualquer um está melhor que um cara divagando
sobre a ex namorada num ônibus lotado.

As vezes eu penso em procurar notícia suas, penso em ligar para suas amigas e perguntar como você está. Mas não. Melhor não. Meu pai tem razão, a ignorância pode ser uma benção. 

nota nº 4: "os leigos é que são felizes", completaria ele.

Daqui a cinco minutos chego em casa. Olho para o que acabei de escrever  e não me reconheço mais. É uma bagunça. É a minha bagunça. Sou eu. 20 anos. Solteiro. Ex rimante. Costumava cantar através de versos, hoje só sirvo para escutar. Se a situação é permanente? Não sei. Se os leigos é que são felizes, prefiro continuar sem saber. Obrigado pai, acho que o senhor tem razão.








Nota do autor:
Inicialmente, o texto acima foi todo escrito de forma "bonitinha", mas não transmitia o que eu queria passar. Ai surgiu a ideia de "bagunçá-lo", para que o leitor sinta o desconforto que é para um escritor passar por uma crise que comprometa sua escrita. O sentimento está lá, visível, quase apalpável, mas simplesmente não consegue ser encaixado no contexto. É mais frequente do que vocês imaginam, inclusive para mim.
"Eu não sei mais rimar" é o nome de um pequeno projeto que estou desenvolvendo. Consiste em um texto em poesia e outro em prosa que, conforme o título sugere, dispensa quase que totalmente as rimas. O tema e a situação descritos tanto na prosa quanto na poesia permanecem o mesmo. A ideia principal é mostrar como a alteração no estilo da escrita muda a percepção do leitor em relação ao tema tratado. Tema, é claro, voltado aos sentimentos. Vocês acabaram de ler "a prosa". Semana passada postei "a poesia" (para ler clique AQUI). Coisa simples, como deve ser a escrita, mas ambicionando ser profunda, objetivo que vocês é quem dirão se foi alcançado.




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