segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mudar o Foco

Ele me fitou, sério, e perguntou:

- Vovô, é possível acabar com um amor não correspondido?
Refleti por um instante, pensando na coisa certa a dizer. Respondi:
- Se você irá conseguir eu não sei, mas precisa tentar. Ou você acaba com ele ou ele acaba com você.
- Mas como um amor pode acabar conosco?
- Amor não correspondido quando guardado por muito tempo vira mágoa. E mágoa é o veneno mais mortal que conheço. Te mantem vivo enquanto te mata silenciosamente.
- Então como faço isso? Como apago um amor?

Ele me pegou! Não sabia ao certo o que responder. Como apagar um amor? Ao longo dos meus setenta anos de vida nunca parei para pensar nisso. Se a humanidade soubesse da resposta já teria patenteado a fórmula...
Ele percebeu meu silêncio, abaixou a cabeça e saiu da sala. Como apagar um amor não correspondido? Eu deveria ter lhe dito que o tempo faria isso, o tempo se encarregaria de apagar o que fosse preciso. Mas para falar a verdade não acredito muito nessa história. É genérico demais. Não se pode apagar do coração aquilo que foi sentido mas nunca consumado. 
A verdade é que todo amor deveria ser vivido. Mas as coisas não são assim. O "não" está por ai, e não somos imunes a ele. Mas sobreviveremos. Apagar talvez seja isso! Nós sobreviveremos aos amores não correspondidos mesmo que nunca os superemos de fato. Se um amor não cura outro, pelo menos o tira do centro das atenções. São camadas sobre camadas que vão deixando antigos amores cada vez menos propícios a voltar a incomodar. Preciso contar isso ao meu neto. Nós sobrevivemos! E uma hora deixa de incomodar. Basta mudar o foco. 

- Refaça a pergunta.
- Como assim vovô? 
- Vamos. Refaça sua pergunta.
- Está bem... É possível acabar com um amor não correspondido?
- Não.
- Não?!
- Não. Mas você sobreviverá. E uma hora deixará de incomodar.
- Já passou por isso? 
- Sim.
- E deixou de incomodar?
- Não viu o tempo que levei para elaborar sua resposta?
- Sim, mas o que isso quer dizer?
- Quer dizer que se não tivesse deixado de incomodar eu teria a resposta na hora. Mas precisei pensar, precisei sentir as camadas dentro de mim para me assegurar que não incomoda mais. Na verdade, você até esquece da maioria deles... tempo não cura, tempo muda o foco. 
- Tem certeza?
- Não tenho certeza. Mas tenho experiência. Isso deve valer de algo...
- Vale sim vovô. Isso vale muito.

"Tempo não cura, tempo muda o foco." Eu deveria escrever um livro. Ah besteira, ninguém compraria. Mas eu deveria escrever mesmo assim. Meu neto leria. Quem sabe  ele não mostra aos amigos dele? É isso! Escreverei um livro! Mas só depois de um cochilo. Filosofar sobre amor esgota a gente. "Filosofar sobre amor esgota a gente"... puxa, isso vai ser interessante...



domingo, 22 de junho de 2014

Resenha: Will&Will

"Você gosta de alguém que não pode retribuir seu amor porque é possível sobreviver ao amor não correspondido de uma forma que é impossível no caso do amor correspondido."

Que tal convidar um amigo para escrever um livro junto contigo? Vamos fazer assim: você escreve sobre um personagem e eu sobre outro, em capítulos alternados. Em determinado momento da história nossos dois personagens se encontram e seguem juntos rumo a um desfecho em comum. Se interessou? Pois bem, John Green e David Levithan também acharam a ideia bacana; E assim nasceu Will&Will, obra escrita em conjunto pelos dois autores.

W&W conta a história de dois adolescentes americanos que não sabem da existência um do outro e vivem vidas completamente diferentes. Até ai nada de anormal, exceto pelo fato dos dois terem exatamente o mesmo nome: Will Grayson. Como diferenciar os dois Will’s que protagonizam a história? Vamos primeiro falar das características de cada um...

Deixemos que o primeiro Will se auto-defina: "Não muito inteligente. Não muito bonito. Não muito legal. Não muito engraçado. Este sou eu: não muito." Aprofundando um pouco mais podemos dizer que Will Grayson I é um estudante do ensino médio que cometeu um "suicídio social" certa vez ao defender publicamente o gay mais gay da escola: Tiny  Cooper. Como resultado, Will foi excluído dos grupos sociais
As duas capas brasileiras de Will&Will
da escola e acabou se tornando grande amigo de Tiny. Will não é gay, mas não vê problema nenhum em quem é, por isso defendeu Tiny. Só não achava que seria excluído por isso. O mais interessante deste Will é sua tentativa de se manter à margem do amor e dos relacionamentos amorosos. Não consegue, é claro. John Green fica a cargo dos capítulos protagonizados pelo primeiro Will.

O segundo Will tem a mesma idade do xará, mora nos arredores de Chicago. É pouco sociável, não tem amigos e enxerga as coisas com um olhar bastante obscuro. Ele é gay não-assumido e mantem um relacionamento virtual com Isaac, garoto que ele nunca viu pessoalmente, mas que acaba sendo sua "luz no fim do túnel". O Will gay, depressivo e mau-humorado é criação de David Levithan, que escreve seus capítulos sempre em letra minúscula.

O livro segue contando paralelamente as histórias dos dois Will Grayson’s até que em determinado capítulo, mais ou menos no meio do livro, Will Grayson conhece Will Grayson no centro de Chicago. Era um dia péssimo para os dois, o que provavelmente propiciou uma espécie de laço entre os garotos. O que os levou a se encontrar e o que acontece depois são questões que só quem ler o livro terá o prazer de entender.

Não falei muito a respeito de Tiny Cooper mas garanto que ele é um dos personagens mais carismáticos e divertidos que você irá conhecer. "Fabuloso", como ele mesmo costuma se definir. Aliás, todos os coadjuvantes do livro tem papel fundamental na vida dos dois protagonistas, e isso é fantástico.

W&W é uma obra divertidíssima, é como se você estivesse lendo um seriado adolescente. O livro é carregado de amor, amizade, risadas, muita música e, acima de tudo, carrega uma lição muito bonita de respeito às diferenças. O fato de dois autores escreverem simultaneamente confunde um pouco no começo mas logo se mostra eficiente. O final do livro, que quase sempre me decepciona em livros de Green, desta vez agradou, e foi até emocionante. A frase que escolhi para abrir esta resenha é uma das que mais me marcaram, subam a tecla de rolagem e a leiam novamente. John Green faz essas coisas: solta frases de efeito aparentemente bobas mas que escondem reflexões profundas. 

Quando terminar W&W você sentirá falta dos personagens, pode apostar. Mas para isso, você precisa começar a ler. "porque todo mundo acredita que deveria ser possível só continuar sendo arrebatado e arrebatado pra sempre, sentir o fluxo de ar no rosto enquanto se é carregado... e isso deveria ser possível. a gente deveria poder ser arrebatado para sempre." É isso ai.



Mais sobre Will&Will

"[...] quando as coisas se quebram, não é o ato de quebrar em si que impede que elas se refaçam. é porque um pedacinho se perde - as duas bordas que restam não se encaixam, mesmo que queiram. a forma inteira mudou." 

"A verdade pura e simples
Raramente é pura e nunca simples de fato."

“Tenho a sensação de que minha vida está muito dispersa neste momento. Como se fosse um monte de pedacinhos de papel e alguém ligasse o ventilador. Mas falar com você me faz sentir como se o ventilador tivesse sido desligado por um tempo. Como se as coisas pudessem fazer algum sentido. Você junta todos os meus pedacinhos, e sou muito grato por isso.”


Quer mais John Green? Aqui tem:


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Crônica: CTRL + Z

Isso foi depois, depois do amor.

(CTRL+Z)
E ai acabou.
E antes você disse que não conseguia mais me amar
E antes eu estava me perguntando o que eu havia feito de errado
E antes já não conversávamos mais
E antes você parecia entediado quando conversávamos
E antes minhas manias começaram a te irritar
E antes você não lia mais os bilhetes que te escrevia
E antes alguma coisa havia mudado
E antes nos beijávamos ao som daquela música que sempre te emocionava
E antes brigava comigo quando dizia que preferia Gil à Caetano
E antes tínhamos uma sintonia impressionante
E antes passamos a conversar mais e mais
E antes eu realmente queria me aproximar de você
E antes havia algo no seu olhar, no seu jeito de falar
E antes eu te enxerguei
E antes eu te vi
E antes eu te olhei
E antes eu estava bem comigo mesmo
E antes... eu gostaria que tivesse parado por ai
Isso foi antes, antes do amor.
(ERROR)

E agora está tudo errado, a ponto de não saber se conseguirei consertar.
E agora essa maldita insegurança permeia minha vida
E agora tudo que eu mais queria era que as coisas fossem tão fáceis  quanto um CTRL+Z
E agora eu percebo que não se pode excluir sentimentos sem excluir o que sou
E agora eu me pergunto, e agora?
E agora, garoto, e agora?


Foto: Paulo Dias