quinta-feira, 22 de maio de 2014

Poema: Partilha

As palavras que te dei
são suas, pode ficar
não as quero de volta.
Os sorrisos que me deu são meus
não que vá usá-los novamente
é que impregnaram feito tatuagem.
Os discos dos Beatles
os livros do Leminski
os filmes do Allen
a coleção de bonequinhos Star Wars
fique com tudo
não quero nada.
A ordem é desapegar
desagregar.
Outros filmes, outras músicas
outro poeta favorito, outro alguém.

Ele vem, eu sei que vem
por isso a urgência
quero preparar a casa, o coração.
Sobre nós
a partir de hoje estamos em paz
aperte minha mão
estou jogando uma pá de terra sobre tudo isso
você não me conhece mais.
Cadeado sem chave
canção sem clave
E quanto a nossa história
Poema sem rima
selado com silencio eterno.
Não que eu não tenha gostado
é que já doeu demais
em mim e em você.
Se não tiver mais nada a dizer
eu também não tenho.
não mais.


4 comentários:

  1. Achei lindo! Mas tanto empenho em dizer que acabou e que superou o outro a mim parece que a presença dele ainda dói e ainda é sentida.

    Beijinhos
    www.serleitora.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amor, então,
      também, acaba?
      Não, que eu saiba.
      O que eu sei
      é que se transforma
      numa matéria-prima
      que a vida se encarrega
      de transformar em raiva.
      Ou em rima.

      - Leminski

      Excluir
    2. Érica, o que você disse é a mais pura verdade. Mas se não podemos simplesmente esquecer alguém só porque queremos, que pelo menos usemos o que estamos sentindo para transformar em versos não é verdade? Beijo e obrigado pelo comentário! :)

      Excluir
    3. Saulo, amo esse poema. Leminski é meu manual de instruções.

      Excluir