quinta-feira, 22 de maio de 2014

Poema: Partilha

As palavras que te dei
são suas, pode ficar
não as quero de volta.
Os sorrisos que me deu são meus
não que vá usá-los novamente
é que impregnaram feito tatuagem.
Os discos dos Beatles
os livros do Leminski
os filmes do Allen
a coleção de bonequinhos Star Wars
fique com tudo
não quero nada.
A ordem é desapegar
desagregar.
Outros filmes, outras músicas
outro poeta favorito, outro alguém.

Ele vem, eu sei que vem
por isso a urgência
quero preparar a casa, o coração.
Sobre nós
a partir de hoje estamos em paz
aperte minha mão
estou jogando uma pá de terra sobre tudo isso
você não me conhece mais.
Cadeado sem chave
canção sem clave
E quanto a nossa história
Poema sem rima
selado com silencio eterno.
Não que eu não tenha gostado
é que já doeu demais
em mim e em você.
Se não tiver mais nada a dizer
eu também não tenho.
não mais.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Entrevista: Daysi Bregantini

Proprietária e editora-chefe de uma das maiores revistas sobre jornalismo cultural no Brasil fala sobre os prazeres e desafios de manter uma revista nos dias atuais

Reportagem: Paulo Dias, Bianca Camargo, Taisa Barcelos,
 Náliny Andrade, Lohaine Trajano e Gustavo Nascimento


S
e para alguns jornalistas conseguir atuar em Jornalismo Cultural é uma questão de receber uma oportunidade, para Daysi Bregantini foi uma questão de criar a oportunidade. Após vinte anos trabalhando com assessoria de comunicação, a Paulista de 60 anos resolveu que era hora de começar a fazer o que realmente gostava. Saiu do emprego e fundou aquela que se tornaria uma das mais respeitadas revistas sobre jornalismo cultural do Brasil atual, a Revista Cult. Daysi recebeu nossa reportagem em seu escritório, na Vila Mariana, e numa conversa de cerca de uma hora falou sobre a revista, os desafios da profissão que escolheu e o futuro que vê para o jornalismo cultural.

Gostaríamos de começar a entrevista tentando entender como funciona a produção de uma crítica cultural na Revista Cult.
Daysi: É uma revista que não tem uma fórmula pronta, nem uma fórmula engessada. A gente trabalha pouco com fórmulas e com projetos. 
A gente procura fazer uma crítica ampla, abordando a questão da educação, da dificuldade do acesso ao conhecimento. A crítica que a Cult faz eu chamaria de uma crítica mais social. A crítica literária que a fazemos, por exemplo, no sentido de resenha de livro, a gente só publica livros que a gente gosta, só publica peças que a gente gosta. Então selecionamos pelo nosso critério editorial, mas sempre selecionando e falando do que há de melhor; A gente jamais vai fazer alguma coisa falando mal, nesse sentindo. Entendeu?  O que é ruim, a gente nem publica. Vamos falar mal pra quê? Em termos de crítica social, eu diria que somos uma revista de esquerda , pois nos colocamos  muito favoráveis a um movimento que sirva para abrir os olhos de quem está no poder, de que tem alguma coisa muito errada acontecendo.

Como você analisa o atual cenário da crítica cultural no Brasil?
Daysi: Eu acho que está péssimo. Falando um pouco de crítica literária... A crítica literária de qualidade hoje ela é produzida dentro das academias. Acho que nós temos grandes críticos literários na USP, na UNICAMP, enfim em várias universidades, mas presos nos muros acadêmicos. Eles vão pouco à mídia. A figura do intelectual público aqui no Brasil é um pouco mais rara. Então, antigamente nós tínhamos críticos literários como Antônio Cândido que hoje tem 90 e tantos anos, ele era um crítico literário que escrevia no jornal. Enfim... não vejo novos críticos literários surgindo na imprensa. Tem na academia. Tem grandes críticos maravilhosos dentro das grandes universidades. Poucos falam à imprensa. Alcir Pécora, que é um grande crítico literário da UNICAMP, por exemplo, ele escreve na Cult. Porque é uma revista considerada quase que acadêmica. Mas você não acha esses críticos escrevendo na grande imprensa.  Na Veja, Na Isto É. Eu não considero a Cult grande imprensa, sabe? A Cult é uma revista pequena e de uma editora independente. A Cult é uma revista alternativa. Na grande imprensa esses perfis quase não estão mais presentes.

Mas eles não estão presentes porque não querem, ou porque a mídia não aprecia?
Daysi: Tem duas questões aí. Eu acho que a imprensa de um modo geral não dá mais espaço mesmo. Alguns cadernos importantes como o Sabático do Estadão acabou. E era um caderno que eu, pessoalmente adorava. E a ordem dos jornais atualmente é escrever resenha em dez, quinze linhas. E um crítico intelectual não se propõe a escrever uma crítica ou resenha em dez, quinze linhas. Então, por exemplo, na grande imprensa uma critica literária tem cerca de três mil caracteres. Aí você pega um crítico que tem uma formação acadêmica sólida... Ele não vai escrever nada em três mil caracteres. Então eu acho que a imprensa se simplificou demais, que a imprensa acha que o leitor médio não gosta de ler. E ele é o quê? Robô? E o crítico mais sério se recusa a escrever dez linhas sobre um livro. Fica um impasse. Sobram revistas acadêmicas que circulam em universidades e são muito boas - mas com circulação minúscula - e a Cult que é uma revista que sofre muito por falta de dinheiro, que tenta fazer um jornalismo cultural independente mas está com a corda no pescoço.

Até que ponto a CULT tenta manter a linha editorial imune à visão mercadológica de crítica cultural?
Daysi: Tentamos nos manter totalmente (imunes). Primeiro que a gente não tem uma lei de incentivo. Eu poderia até correr atrás, afinal minha revista tem 17 anos e ninguém vai me negar com a Lei de Incentivo. Mas eu nunca pedi. Eu não quero. Eu gosto da gente independente. E a gente é independente também por um principio nosso. O que valorizamos aqui é a pequena editora. É aquele cara que está começando e ninguém publica.  A gente tem uma capa com o Criolo (cantor paulistano) e era uma capa sobre rap. A gente procura estar ligada às periferias e trazer a produção das periferias, trazer a linguagem da periferia pra esse quadrilátero “burguesão”, que é o quadrilátero da indústria cultural. Um quadrilátero que só tem lei do governo para pegar um monte de dinheiro e fazer uma exposição, e eu odeio isso. Então, eu acho que a gente é totalmente isento mesmo. Na Cult não entra o grande editor, a gente vai procurar lá em Minas (Gerais) uma editora pequena que está lançando um cara novo e a partir disso fazemos uma grande matéria.


Já aconteceu de alguma crítica veiculada na CULT gerar repercussão negativa? Em casos assim, existe algum procedimento para “acalmar os ânimos” ou o debate, mesmo que acalorado, faz parte do papel da crítica?
Capa com Ivana Bentes
gerou repercussão nas redes sociais
Daysi: Várias vezes. Recentemente com a capa da Ivana Bentes dando o dedo do meio. A gente recebeu muitas cartas elogiando, até porque tem que ler a entrevista pra saber para quem ela está fazendo isso. Não é para o povo, entendeu? Ela estava fazendo isso para quem não merece respeito, para quem não se dá ao respeito. Que rouba, que trapaceia; na verdade ela está fazendo isso para a classe política. Então, a gente recebeu tanta carta, mas tanta que inclusive postamos no nosso Facebook uma carta em questão. Ela dizia que nós estávamos dando mau exemplo para as crianças. A mulher, como presidente de uma associação dizia que as mães estavam ensinando o filho a não fazer isso e a gente estampa na capa uma mulher fazendo isso. Acho que foi uma repercussão nesse sentido: recebemos muita crítica sobre isso, mas, por outro lado, teve muita gente que adorou.

É cada vez maior o número de profissionais com formação em outras áreas que não a jornalística produzindo críticas. O que você acha disso?
Daysi: Eu não vejo problema nenhum. Meu crítico de teatro não é jornalista. Ele é professor da UNICAMP, ele é um acadêmico.  Nosso crítico de teatro, é um doutor em teatro também. Mas na redação, eu só contrato jornalista diplomado. Os críticos como você diz, são       colaboradores, vamos chamar assim, a gente convida um colaborador especialista em uma área do conhecimento. São só especialistas. Até porque, no final das contas o jornalista não é especialista em nada, né? (risos)

A reportagem “Coisa absurda, senão grave”, publicada na edição 188 da CULT (pelo jornalista Muniz Sodré), critica as novas diretrizes do MEC em relação aos cursos de jornalismo e diz que tais diretrizes “separam o jornalismo da comunicação”. Como se dará essa separação?
Daysi: O jornalismo hoje faz parte da comunicação. Ele deixará de estar vinculado ao chapéu da comunicação para fazer parte de um curso técnico. Deixará de ter reflexão, deixará de ter literatura, para se transformar num curso técnico. Eu acho que o Muniz Sodré está certíssimo e é absurdo o que o MEC está fazendo com as faculdades de jornalismo. Está fazendo não, vai fazer. Porque as tais diretrizes estão para serem aprovadas agora mais irão entrar em vigor em janeiro de 2015.

Mas os cursos de jornalismo no Brasil atualmente já não são fracos?
Daysi: Eu acho que de um modo geral o ensino no Brasil está muito ruim. O que está muito pior é o ensino básico. Então, alguém chegou na faculdade de jornalismo e fez um péssimo colegial. É irreparável. Se você for mal alfabetizado você nunca vai ser um bom jornalista. Você lida com a palavra? Então, às vezes a faculdade pega um aluno e vem com um distanciamento muito grande do vocabulário, da gramática e a faculdade não dá conta de resolver tanta carência. Eu acho que o Brasil está muito ruim no ensino básico e tem muita faculdade querendo cobrar caro com péssimos professores. Eu acho que o sistema de ensino está muito ruim. E sim, as novas diretrizes só irão piorar isso.

Você se declara a favor do diploma de jornalismo. Gostaria de comentar algo a respeito?
Daysi: Se ele existe, tem que respeitar. Eu penso assim, eu não acho justo que você que foi lá, estudou quatro anos, fez trabalho, fez TCC, leu, gastou dinheiro e se forma. E o que fez economia é contratado para trabalhar de jornalista. Eu não faço isso. Porque vai contra o meu coração, a minha ética... não sei explicar. Eu penso: Por que vou contratar um economista, um cara que fez história e não quem fez jornalismo? É questão de respeito a uma lei. O meu partido, o PSOL, é contra o diploma. Então eu fico encima do muro. Mas, com exceção de colaboradores (filósofos, acadêmicos, etc) eu só contrato quem se formou. É meu direito, não é? A empresa é minha e eu faço o que eu quero. Eu só contrato quem tem diploma e pronto!

Mudando um pouquinho de assunto, vamos falar sobre mídias digitais. Você acredita que a revista impressa está estabilizada ou tende a perder ainda mais espaço para as plataformas digitais?
Daysi: tende a perder cada vez mais. O preço do papel e da bobina são muito caros. Então, pra você publicar a revista, tem que comprar papel, que é uma fortuna, e ainda tem que ter uma gráfica para rodar, e a gráfica é outra fortuna. Mas o pior, o mais grave no Brasil é que tem um distribuidor só. Como apenas uma distribuidora atua um país desse tamanho? Tem muito lugar que não sabe o que é a revista Cult mesmo com a revista tendo 17 anos. Voltando aos custos, 50% do preço de capa vai para o distribuidor. O resto você tem que desembolsar para o papel, impostos, gráfica e mão de obra. Tudo isso torna a revista um meio muito caro.

E como é a relação da revista Cult com os novos meios digitais?
Daysi: é assim, é: eu gosto do papel. Eu sou de uma geração que ama o papel, e eu já tenho 60 anos. Para mim o mundo virtual é bem distante das minhas referências. Eu male- male sei passar email, então enquanto tiver como fazer impresso, a Cult será impressa. Eu (a revista) estou (hospedada) no UOL, a gente tem mídias sociais, Facebook, Twitter, tudo isso. O nosso Facebook acho que tem mais de 40.000 curtidas e o Twitter da Cult tem bastante (seguidores) também. Então, eu sei do poder das mídias digitais, mas eu acho que por enquanto a Cult vai continuar no papel. A minha verba, o meu dinheiro pra investir é na revista impressa.

Mas com a expansão do digital, você não pensa em investir nessa plataforma?
Daysi: Eu não. Eu vou continuar investindo o pouco dinheiro que eu tenho no papel. Se eu tiver um dinheirinho, eu vou melhorar o tipo de papel ou vou colocar uma sexta cor. Ainda não vou investir numa plataforma digital. Eu tenho site, meu site tá dentro do UOL, tenho Facebook, tenho Twitter, tenho tudo isso que vocês gostam, mas o meu investimento financeiro é na revista impressa. Eu prefiro investir em um bom fotógrafo, que fez um belo trabalho na ultima edição (de março), do que investir no meio digital. Querido, eu sou velha (risos). É isso.

Qual é a tiragem da Cult? Costumam vender tudo?
Daysi: 35.000. E geralmente vende tudo. Depende muito do mês, depende muito de vários fatores como capa, mês de férias, por exemplo, julho é ruim, janeiro é fraquinho. Mas a Cult, hoje é a revista que, em percentual, é a que mais vende em banca, percentual, não em números, porque a VEJA, óbvio, vende 1 milhão mensais, mas a Cult vai vender em média 60, 70% do que ela põe em banca. É assustador pensar que só estou fazendo as coisas aqui porque ainda há o leitor que compra. Mas é uma classe mais intelectual.

A Cult investe não só em Jornalismo Cultural, mas também em atividades culturais. Gosta dessa diversificação?
Daysi. Sim. A gente tem um centro cultural na Vila Madalena. É nosso e chama-se Espaço Revista Cult. Tem um monte de pôsteres nas paredes, lançamento de livros, tem livraria e exposições de fotografia, é lindo lá, é lindo mesmo. Quem administra é a minha filha que tem a sua idade (35 anos). A Fernanda. Ela também estudou jornalismo e é responsável pelo espaço Revista Cult e os congressos que realizamos. Eu vou pouco lá porque é na Vila Madalena e eu sempre fico aqui (na sede da revista, na Vila Mariana).

Mudando um pouco de assunto, como a Cult se articula para atender o público?
Daysi: a relação vem de todos os meios: carta, internet, telefonema, etc. Recebo cerca de uns 2 emails por dia. Tem dia que chega mais, mas a média são dois. E eu falo com todo mundo que pede, não me recuso a falar com ninguém. Há casos e casos, por exemplo, se você for lá em nosso Facebook você vai ver: tem um cara que xingou a gente, dizendo tem muito erro de revisão na revista de março, aí a gente entrou na página da revista e pediu: "então o senhor pode, por favor, mostrar sua identificação e quais são os erros?". A pessoa não apareceu... Mas a gente procura sempre ir até o fim com os questionamentos do leitor. São poucos então temos que procurar tratar bem (risos).

Tem algum conselho, dica que você queira dar aos interessados por trabalhar com jornalismo cultural?
Daysi: Estude a sua língua. Estude outras também, mas principalmente a sua. Nossa língua é o maior patrimônio que podemos ter.  Vocês gostam de Criolo? Eu gosto e ele fala assim: você é responsável pelo seu sonho. Se você não defendê-los, quem vai defendê-los por você? Ninguém, né. E eu acho lindo. Eu acho que quando a gente é jovem tem que ir atrás mesmo do sonho. Quando eu digo sonho, eu digo o mundo ideal ou um objetivo. Nasci no interior, há 600 quilômetros de São Paulo, lá no fim do mundo, eu vim com a mochila, fazia jornalismo cultural, demorou muito pra eu conseguir. Trabalhei 20 anos com assessoria antes de entrar no jornalismo cultural. Mas não desisti. Fui paciente e quando tinha sentido que chegou a hora montei minha revista e hoje estou aqui, apesar da instabilidade faço o que amo e seguirei fazendo enquanto tiver forças.


Entrevista originalmente elaborada para a disciplina Jornalismo Cultural e Científico. Professor Fábio Cardoso, Universidade Anhembi Morumbi/2014. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Poema: Eu conto se você prometer não fugir

mania boba
de tentar me encaixar
em tudo que você escreve
me descreve.
mania tola
de tentar decifrar
tudo que você faz
e passar a acreditar
que fez para me dizer
o que tanto quero que diga
e não diz.
Tudo que fiz
e o que não fiz
não condiz
com o que quero fazer
e dizer
mas não sei como
nem sei se devo
e não me atrevo
a me atrever.
Fico girando em círculos
num conto não conto
colocando ponto atrás de ponto
e formando reticencias
infinitas reticencias
que abrem caminho
para lugar nenhum.
Sinto-me bandido
que roubou de si mesmo
o direito de sorrir.
aquele que sabe o que sente
mas não sabe como sentir
preso num labirinto
onde a saída
é muito nítida
mas falta coragem
para transpor a barreira.
Eu conto se você prometer não fugir
conto se prometer agir
conto se prometer cumprir as promessas
que promete sem intenção de cumprir.
Mas não me peça para prometer o mesmo
porque
antecipando sua ação
por medo ou precaução
antes mesmo de te deixar falar
já terei fugido.