quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O poder do clichê

Hoje é dia de cortar o cabelo e caprichar no penteado. Hoje é dia de deixar a camiseta do meu Timão um pouco de lado e vestir algo mais propício à ocasião. Hoje meu All Star preto surrado vai descansar debaixo da cama, será substituído por aquele sapatênis que só usei uma vez no casamento de um parente. Tudo isso por que hoje fazem dois anos. Hoje fazem dois anos e eu quero que ela saiba o quão feliz estou. Não que ela ligue para tudo isso, mas tenho certeza que reclamar ela não irá. Jogo no Google a palavra "floricultura". Ótimo, tem uma no caminho para a casa dela. Que flores? Rosas. E vermelhas. Rosas vermelhas são infalíveis. Ela uma vez me disse que não gosta de flores, porque é algo que murcha rápido. Mas senti o tom na voz dela. Aquilo não era verdade. Toda mulher gosta de receber rosas. E mesmo que não goste, merece recebê-las. Noite passada discutimos. Motivo besta. Ela acha que não reparo mais nela. Tadinha. Se soubesse as coisas que passam pela minha cabeça toda vez que a vejo perceberia que reparo em cada centímetro dela. Reparo em cada sarda daquelas bochechas. Reparo que ela sempre coloca os cabelos soltos para trás das orelhas mas eles nunca ficam lá. E ela faz de novo. E de novo. E de novo.  Reparo que ela detesta futebol. Mas faz um esforço danado para fingir que gosta. Reparo na forma como ela respeita o amor que tenho pelo meu time. Reparo que ela reparou que estou ficando careca. E não ligou para isso. Reparo que aceitou minhas manias. Até aquelas que eu jamais achei que alguém iria aceitar. Reparo que ela me ama. Reparo que a amo. Puxa, como a amo! Não sou o Gus daquele livro que ela adora. Ma ela é minha Hazel. Sim, eu li. Eu li o livro de capa azul porque ela disse que era uma história linda. E era. Apesar de trágica. 'Eu acredito em amor verdadeiro. Não acho que todo mundo possa continuar tendo dois olhos nem que possa evitar ficar doente, mas todo mundo deveria ter um amor verdadeiro.' Era algo mais ou menos assim que o carinha cego do livro disse. E eu concordo. Ela é meu amor verdadeiro. E eu irei usar todos os clichês disponíveis para um cara apaixonado. Todos eles. Para mostrar a ela que hoje fazem 730 dias desde que eu vi o olhar mais expressivo da minha vida piscar para mim. 730 dias daquela palavra doce de três letras. SIM. E eu estou quase na porta da casa dela para tentar mostrar a ela que aquele sim continua ressoando em minha cabeça. Continua vivo. Verdadeiro. E quero que ela saiba que o próximo SIM que quero ouvir dela será para colocar um anel naquele dedo. Quero que ela saiba de todas essas coisas. Mas sei que não irei conseguir falar tudo isso. Por isso o penteado. Por isso a roupa. Por isso o tênis e as flores. Por isso o trecho do livro de capa azul anotado num pedaço de papel guardado em meu bolso. Para que ela saiba que é a única garota do mundo pela qual estou disposto a fazer isso. Me transformar num clichê. Simplesmente porque não há clichê mais gostoso que estar apaixonado.



Nota do autor:
Primeiramente, perdoem o desenho. Definitivamente não é meu forte. "Segundamente", gostaria de agradecer a todos os leitores, visitantes e curiosos que passaram por esse blog em 2014, vocês são demais. Tenham uma passagem de ano incrível e um 2015 melhor ainda. Espero vê-los todo por aqui ano que vem. Forte abraço, Paulo. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

à deriva

ela parou
no meio da 25 de março
em pleno mês de dezembro
com uma dúzia de sacolas na mão
ela parou
e enquanto as pessoas se moviam
sentiu-se a deriva
num oceano de homo sapiens
pensou em gritar
Ilustração:Paulo Dias
que algo estava errado
e que alguém havia ativado
a função slow motion
mas percebeu
que ninguém a escutava
e que todo esforço gasto em comunicação
era totalmente em vão
durante os segundos que se sucederam
lembrou das aulas na faculdade
e lhe ocorreu que talvez
acabara de ter um inside
seja lá o que estivesse prestes a entender
não teve tempo de anotar
pois logo em seguida
seu filme se transformou
numa imensa tela preta
no dia seguinte
viera a descobrir
que grandes descobertas
nunca fazem questão
de chegadas dramáticas
e que seu quase primeiro inside
também responde pelo nome
de hipotensão.

domingo, 23 de novembro de 2014

Análise: Boyhood - Da infância à juventude

Filmado ao longo de doze anos, filme transita entre ficção e realidade de forma primorosa


"As pessoas dizem que devemos curtir o momento.
Eu fico pensando se na verdade não é o contrário,
se o momento é que deveria curtir a gente." (Boyhood)
Um filme que já era sensação antes mesmo de estrear, esse é Boyhood. A curiosidade permeava o imaginário de quem ouvia falar sobre o projeto - sem dúvidas ousado - do diretor Richard Linklater. A proposta era contar a história do garoto Mason (Ellar Coltrane) de seus seis aos dezoito anos. Até ai nada excepcional, exceto pelo fato de que Linklater quis manter o elenco original ao longo de todo o filme. A única maneira de fazer isso era esperando o tempo passar. E foi isso que o diretor fez. Cerca de três dias por ano, ao longo de doze anos, o diretor reunia seu enxuto elenco para as gravações. O resultado é um realismo impressionante que transcende a aparente simplicidade do roteiro.

O filme acompanha o crescimento de Mason Jr. e sua relação com seus familiares. Os pais, Mason (Ethan Hawke) e Olivia (Patrícia Arquette) se divorciaram pouco tempo após o nascimento de Mason Jr. No meio da conflituosa relação dos dois, o jovem Mason vai crescendo e enfrentando seus próprios demônios: dificuldade em se relacionar com a irmã Samantha (Lorelei Linklater), problemas com os parceiros da mãe, entrada na adolescência, primeiro amor, sexo, drogas e a escolha da profissão. "Eu quase nunca me sinto a vontade para verbalizar meus sentimentos. Palavras não são o suficiente, entende?", confessa o rapaz em certo ponto do filme. Não preciso nem dizer que o fato de o ator crescer com o personagem só torna tudo ainda mais real. Ethan e Patricia também merecem elogios por se permitir envelhecer na frente das câmeras. Sem dúvidas, não é um desafio que muitos topariam.

Boyhood acabou se transformando em mais que um filme de ficção, virou quase um documentário. E o caráter documental está presente em cada detalhe da película: cabelo e vestimenta dos personagens, trilha sonora, vícios da geração Y (Harry Potter, Dragon Ball, Música Pop, etc) e modas passageiras, como o movimento Emocore, por exemplo. Fotografia esplêndida e trilha sonora repleta de grandes nomes da primeira década, como Coldplay, Lady Gaga e Gotye, fazem com que a história flua ainda mais naturalmente.  No final das contas temos um belo retrato do que foi a primeira década do século XXI através do rosto e da vida de Mason e sua família.

Antes de Boyhood, o diretor Richard Linklater já era conhecido mundialmente por sua forma peculiar de usar o tempo para contar suas histórias. De 1995 a 2013 produziu os filmes da chamada "Trilogia do Antes", formada pelos filmes Antes do Amanhecer (1995), Antes do Por do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013). Nos filmes, a história de um casal é contada a cada nove anos, respeitando os respectivos anos de cada estreia. A trilogia recebeu aclamação mundial e projetou não só o diretor, mas também o ator Ethan Hawke (que protagonizou as três películas e ajudou a produzir os dois últimos filmes da série). Agora, mais uma vez, Linklater recebe elogios merecidos de crítica e público pelo trabalho desempenhado, e já desponta como um dos favoritos ao Oscar 2015.

O mais impressionante em Boyhood talvez nem seja ver o elenco envelhecer. Talvez seja perceber que a vida é realmente isso, uma história que a gente conta em 166 minutos. Se a intenção do diretor era somente mostrar um bom trabalho que fugisse do tradicional, no final das contas ele apresentou muito mais que isso.

The Black Album

Quando Mason faz quinze anos, ganha de seu pai uma compilação caseira de canções chamada The Black Album (uma alusão ao The White Album, clássico LP dos Beatles). O mais legal é a explicação do pai ao entregar o presente: depois que os Beatles se separaram, os integrantes continuaram talentosos, mas faltava algo a mais. O objetivo do Black Album foi juntar canções dos quatro Beatles em carreira solo e mostrar como elas se completam quando são colocadas juntas. Genial.


Boyhood - Da infância à juventude (EUA/2014)
Direção e Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patrícia Arquette, Lorelei Linklater
Opinião: Ótimo

sábado, 15 de novembro de 2014

É só isso?

Num quarto bagunçado do apartamento trinta e cinco, um resto de café oxidava na caneca amarelada esquecida na escrivaninha.
Meio cigarro tragado em seus últimos suspiros esfumaçantes agonizava no cinzeiro.
Um pôster de Elvis Presley adornava a parede mofada e chamava a atenção pelas bordas rasgadas.
Serviam de decoração para o lugar. Serviam de plateia para o tempo. Contemplavam o ócio dAqueles dois.
Numa noite cálida dum domingo qualquer Ele se virou para Ela, com a interrogação pulsando em seu rosto suado, rompendo o silêncio que imperava no local e perguntou:
“É só isso?”
O som de suas palavras ecoou pelo apartamento vazio. Invadiu o quarto, invadiu a sala, invadiu a cozinha, invadiu cada mísero centímetro daquele velho ambiente. E então, a interrogação presente no rosto dele fez despertar nos demais presentes a sede pela resposta.
ilustração: Paulo Dias
A caneca começo a repetir “é só isso?”
A bituca de cigarro começou a repetir “é só isso?”
Elvis mexeu-se no pôster e começou a repetir “é só isso?”
E o eco tornou-se soberano. "É só isso? É só isso?..."
"SIM!", gritou ela irritantemente aliviada.
E a caneca se calou, e a bituca se calou, e o pôster do Elvis se calou. E o apartamento inteiro se calou. A dúvida saltou do rosto dEle e correu pela porta. Encontrando-a trancada se desesperou. Percebeu que a janela estava aberta e aflita se jogou. Se jogou do quarto andar, numa noite cálida de domingo. Era o fim para ela.
A caneca, a bituca, o pôster o e o homem assistiram passíveis ao suicídio dela.
Num tom de voz que unia harmoniosamente frustração e indiferença, Ele se virou para Ela e conclui:
“Ah, que pena”.
“Ah, que pena”, repetiu a caneca na mesa.
“Ah, que pena”, repetiu a bituca no cinzeiro.
“Ah, que pena", repetiu o pôster na parede.
Sabiam o que deveriam ser. Deveriam ser mais que almas cansadas habitando dois corpos nus jogados num colchão duro. Deveriam ser mais que solitários coadjuvantes de uma vida da qual sonhavam protagonizar. Deveriam parar de ficar esperando algo acontecer. Algo que os arrancasse a força daquele cubículo que haviam enfiado suas vidas. Deveriam ser mais tanta coisa que nem se preocupavam em listar. Ficavam ali, servindo de decoração para o lugar. Servindo de plateia para o tempo.
Apagaram as luzes, viraram-se em sentidos opostos na cama e foram dormir.
Era só aquilo. Que pena.

sábado, 18 de outubro de 2014

Cuidado! Frágil

a velha caixinha de música
já passou de mão em mão
sua estrutura envelhecida
hoje vive da razão
ainda hesita ao ser aberta
pois não sabe se liberta
o que tem a mostrar.
busca um coração amanteigado
para manusear com cuidado
seu conteúdo delicado.
desse modo
se não for para se atentar
deixe-a onde está
quieta, empoeirada
ao lado do sofá.
a caixinha é paciente
aprendeu a esperar
ela sabe que um dia
sua hora irá chegar.
e quando for aberta
a melodia tocará
num suave destrinchar de notas
a bailarina se moverá
girando de felicidade
para nunca mais parar.
larara, larara, larara.

sábado, 4 de outubro de 2014

O que acontecerá depois

Para ser lido ao som de Run, do Snow Patrol. 
Me dê a mão.Vamos juntos rumo à porta do esquecimento.

As regras não foram muito claras. O lugar também não me parece muito nítido. Meia dúzia de móveis velhos, uma luz clara e intensa que me impede de abrir totalmente os olhos. Tudo o que me foi dito é que depois de atravessar aquela porta nada será como antes. O coração poderá, enfim, descansar.
Não me recordo exatamente como vim parar aqui, mas desconfio. Deve ter relação direta com tudo o que aconteceu antes.
Ilustração: Henrique Inhauser
Cinco passos me separam da porta, e de tudo o que me espera depois.
Se eu pudesse mudar algo, talvez tivesse mudado a maneira como tentei me mostrar. Talvez tivesse insistido mais. Mesmo sabendo que de nada adiantaria. Nunca mais usarei a palavra "talvez". Do outro lado não há espaço para incerteza.
Quatro passos.
Um eterno sonhador, era como costumavam me definir. Um amante incorrigível. A espera de um amor que sequer existiu. Pecou por esperar demais. Por que fez isso consigo mesmo? Cansaço. Tanto cansaço...
Quando você for obrigado a encarar a realidade trate de não piscar.
Três passos.
Esta é a última vez que falo disso. Faz parte do trato. Não adianta mais ficar remoendo o que deve ser enterrado. Processo de cicatrização. Logo logo não incomodará mais. 
Dois passos.
Sempre penso melhor quando estou em movimento. Quando era pequeno e algo me chateava, eu gostava de pegar minha bicicleta e pedalar em disparada pelo bairro. Gostava de sentir o vento no rosto, gostava de me sentir infinito. Para onde pedalou aquela criança? Seja lá onde for, deixem-a em paz. Corre garoto, corre!
Um passo.
Aqui estou eu. Mão na maçaneta. A porta se abrirá.
Quando a porta se abrir não olhe para trás. Quando a porta se abrir não fale mais dele. Deixe ir. Quando a porta se abrir se abra também. O que aconteceu antes foi enterrado. O que acontece agora é um caminhar pela linha tênue que separa desesperança de indiferença. O que acontecerá depois é um completo mistério.
Seja lá como for está feito. Você é uma pessoa livre agora. Corre garoto, corre!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Análise: Magia ao Luar

Após o sucesso comercial e crítico de Blue Jasmine, o veterano diretor Woody Allen lança sua mais nova produção: Magia ao Luar. Protagonizado por Colin Firth e Emma Stone, a comédia romântica se passa na França dos anos 20.

Stanley (Colin Firth) é o rosto por trás do personagem Wei Ling Soo, um famoso ilusionista que está em turnê pela Europa. Durante sua passagem por Berlin, reencontra Howard (Simon Mcburney), um velho amigo que lhe faz uma proposta tentadora: desmascarar Sophie (Emma Stone), uma jovem médium que virou sensação no interior da França e caiu nas graças de uma família de milionários. Stanley, escondendo sua identidade de mágico, aceita o desafio e parte junto de Howard ao encontro da tal moça.

Magia ao Luar é um cabo de guerra onde duas teses medem forças: ceticismo total versus crença no inexplicável. Ao longo da história, vamos percebendo que mais importante que a realização de algo sobrenatural é o que de sobrenatural pode acontecer a partir da fé que temos. No final, o ato de acreditar talvez tenha mais poder que a magia em si. Um diálogo entre Stanley e Sophie numa das últimas cenas do filme deixa isso bem claro.

O personagem de Colin mais parece uma reencarnação de figuras já vividas pelo próprio Woody Allen: cético, racional e egocêntrico. É visível o esforço do ator nesse sentido. O contraponto fica por conta de Sophie que, com a ajuda da doçura de Stone, faz com que Stanley - e por vezes o próprio expectador - cogite acreditar em magia.

O surpreendente em  Magia ao Luar é justamente o que seria considerado clichê em outros filmes parecidos. Falar mais que isso entregaria o final, e ai a magia não iria acontecer. Aspectos técnicos são, como em praticamente todos os filmes do diretor, impecáveis. A fotografia e as belas paisagens francesas são um colírio para os olhos. Trilha sonora agradável e figurinos de época também ajuda a harmonizar a história.

Produzindo um filme por ano há mais de quatro décadas, a carreira de Woody Allen parece seguir uma linha de altos e baixos. Com um filme aclamado pela crítica seguido por outro que passa quase despercebido, no final das contas parece que o veterano diretor só quer mesmo é se divertir... e nos divertir. Magia ao Luar é um filme para se ver num sábado à tarde sem preocupação em interpretar ou analisar o roteiro. É um doce clichê que reforça que o amor ainda é a magia mais poderosa - e inexplicável - de todas. 



Belas Artes, meu amor!
Assistir a um bom filme já faz a ida ao cinema valer a pena. Mas quando se pode ver um bom filme num cinema completamente reformado e rodeado por pessoas interessantes, ai a coisa fica ainda melhor. O Belas Artes, agora Caixa Belas Artes, esta lindo! Bom atendimento, preço justo (R$10,00 a meia entrada) e ambiente agradável fazem do histórico espaço, um dos mais agradáveis que já visitei. Como nem tudo é perfeito, a qualidade do som nas salas ainda é inferior a de redes como Cinemark, por exemplo. Parece que o som sai da diretamente da tela, o que faz com que ele seja mais baixo que em outros cinemas. Talvez o problema estivesse no filme, talvez fosse só aquela sala, mas o fato é que causou certa estranheza.
Caixa Belas Artes: Rua da Consolação, 2423, São Paulo (ao lado do metrô Paulista).
Fone: (11) 2894 5781

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Aquele que não virá

(para ser lido ao som de Magic, do Coldplay)

Os convidados já foram, a comida acabou, o vinho está quente e o café esfriou. Livre-se destes sapatos que machucam seus pés, tire esse vestido de festa, limpe a maquiagem.
autor da imagem não encontrado
Pobre menina crescida, quem dera pudesse fazer com que a ilusão fosse menos sofrida, quem dera pudesse fazer com que a vida cinza fosse enfim colorida. Quem dera tivesse esse poder. Não tem.
Chega de sonhar com o beijo que não será dado. Chega de aguardar pelo telefone que não tocará. Chega de planejar os detalhes do tão esperado dia. Chega de imaginar a fisionomia da sua felicidade. Chega de esperar por aquele que não virá.
Se a solidão insiste em sua porta bater, deixe-a entrar. Aceite sua companhia, chame-a para dançar. Permita que ela te conduza, feche os olhos e flutue. Dois pra lá, dois pra cá. Faça da sala vazia teu palco. Transforme teus pés em armas. Potencialize seu vazio em ritmo, gire com gosto o mais forte que puder. Estenda-lhe a mão, entrelacem os dedos. Mova sua cabeça, mexa seu cabelo, balance-o como nunca antes, em todas as direções. Aumente a música, não deixe seus pés pararem. Liberte-se do que te aprisiona, liberte-se dessa ilusão que você mesma criou. Ele não virá. Ele sequer existe. Aceite seu destino. Eis o momento de abrir os olhos.
Agora deixe que a solidão conduza-a até a cama. Deite-se menina crescida, deite-se e durma o sono dos justos. Descanse a alma e repouse o corpo. Durma sem carregar a culpa por aquilo que foge a seu alcance. Durma sem esperar por companhia. Baste-se. Amanhã será um novo dia. Ainda há muita vida pela frente menina crescida, ainda há muita vida pela frente.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lista: O cinema em sete cores

Sete filmes de sete países diferentes que tem a homossexualidade como tema principal



Apesar de ainda patinar, é cada vez maior o número de filmes que se propõem a discutir a homossexualidade em suas histórias. E não é apenas no exterior que observa-se essa tendência, nosso Brasil também caminha - mesmo que a passos curtos - rumo a uma ampliação da discussão sobre diversidade sexual na sétima arte. A partir de agora vamos conhecer sete filmes de sete países diferentes que tem gays como protagonistas e tentar entender um pouco melhor como cada um aborda a questão.


Juste Une Question d'amour (em pt: Apenas uma Questão de Amor / FRANÇA, 2000)
O filme francês do diretor Christian Fauré conta a história de amor entre Laurent (Cyrille Thouvenin) e Cédric (Stéphan Guérin-Tillié). Laurent é um jovem de 23 anos, filho exemplar de uma família conservadora, é homossexual mas não assumiu para seus pais. Cédric, por outro lado, é assumido e lida sem problemas com sua sexualidade. O ponto alto do filme é tentar mostrar não só o lado de quem está saindo do armário mas também como é complicado para algumas famílias lidar com isso.

Shelter (em pt: De Repente Califórnia / ESTADOS UNIDOS, 2007)
Dirigido por Jonah Markowitz, Shelter é um dos filmes de temática gay mais famosos do mundo. Leve e solar, o filme tem excelente trilha sonora, belas paisagens e um roteiro bem amarrado. Tendo San Francisco como plano de fundo, o filme conta a história de Zach (Trevor Wright), um rapaz que se vê forçado a colocar seus sonhos em segundo plano para assumir o papel de "pai" de seu sobrinho pequeno, já que sua irmã Jeane (Tina Holmes) não tem o mínimo de responsabilidade. Apesar de namorar com uma garota, Zach não consegue se entregar completamente à relação. Algo em seu coração muda quando Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de seu melhor amigo, volta a morar na cidade. Shelter é elogiado principalmente por mostrar que dois homens podem formar uma família e construir um lar tão saudável para uma criança quanto um relacionamento heterossexual.


Weekend (REINO UNIDO/2011)
Weekend, dirigido por Andrew Haigh, é um filme marcado pela simplicidade estética. Os protagonistas, Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New) se conhecem numa balada de sexta a noite e todo o filme se passa nas próximas 48 horas. Longos diálogos e pouquíssimos cenários fazem com que a história lembre bastante o filme Antes do Amanhecer, só que numa versão gay. Weekend mostra que  um relacionamento pode ser bastante intenso mesmo durando poucas horas,

Out in the Dark (em pt: Além da Fronteira / ISRAEL, 2012)
Em tempos de conflitos violentos no Oriente Médio, este filme do diretor Michael Mayer não poderia ser mais atual. Conta a história de amor entre o estudante palestino Nimr (Nicholas Jacob) e o advogado israelense Roy (Michael Aloni). Se a homossexualidade nesta região já é um tema espinhoso, a tensão é multiplicada por mil já que estamos falando de dois povos historicamente inimigos. E está tudo presente na película: religião, história, conservadorismo e no meio disso tudo... o amor. Mas será que amor é capaz de superar tantas dificuldades? Só assistindo para saber a resposta.

Hawaii (ARGENTINA/2013)
O filme dirigido por Marco Berger segue a mesma linha minimalista do já citado Weekend. Eugenio (Manuel Vignal), um escritor atormentado pelo fim de um relacionamento, resolve se isolar na casa de campo onde passou boa parte da infância. Lá reencontra um velho amigo, Martin (Mateo Chiarino), e aos poucos retoma a amizade que tinha com o rapaz. Amizade que logo se transforma em amor. Mas amar não é tão simples, requer coragem... Hawaii tem como grande trunfo a química incrível entre os dois protagonistas. O final é confuso mas satisfaz o principal desejo de quem assiste o filme.

Jongens (em pt: Garotos / HOLANDA, 2014)
O filme holandês do diretor Mischa Kamp foi feito especialmente para a televisão. Trata do descobrimento da homossexualidade ainda na adolescência e como o processo de assimilação desta descoberta pode ser bastante confuso. Sieger (Gijs Blom) e Marc (Jonas Smulders) são dois garotos de 15 anos que se conhecem durante as aulas de educação física e descobrem aos poucos que o que sentem um pelo outro talvez seja mais que amizade. O roteiro não é nada excepcional, mas é uma história fofa e gostosa de se assistir. 

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (BRASIL/2014)
O último filme desta lista, mas não menos importante, é o belíssimo filme brasileiro dirigido por Daniel Ribeiro e baseado no curta metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Mesmo tendo sido produzido com baixo orçamento, o drama levou mais de duzentas mil pessoas aos cinemas nacionais e já conquistou mais de uma dezena de prêmios, inclusive o Teddy Bear, em Berlim. Conta a história do adolescente cego Leonardo (Ghilherme Lobo) que, apesar de nunca ter enxergado, se apaixona por seu colega de classe Gabriel (Fabio Audi). O roteiro é simples mas de uma eficiência como poucos. Em cerca de uma hora e meia, Daniel Ribeiro dá seu recado com louvor: o amor desconhece barreiras. (mais sobre Hoje Eu Quero Voltar Sozinho AQUI).


bônus: Shelter foi o filme escolhido para representar os Estados Unidos nessa lista, mas não posso encerrar essa matéria sem citar outro filme americano importantíssimo e que gerou bastante discussão: Orações Para Bobby. Dramático do começo ao fim, este filme é obrigatório na lista de quem se interessa pelo tema pois mostra as consequências devastadoras que podem surgir da união preconceito + fanatismo religioso. Voltarei a falar de Orações para Bobby aqui, com todos os detalhes que o filme merece, mas por hora me detenho a este pequeno lembrete.

Existem muitos outros filmes interessantes que abordam a homossexualidade (Brokeback Mountain, Milk, Plano B, etc). E já que este tema rende bastante, em breve farei uma nova lista com mais sete filmes, fiquem de olho. E você, tem algum filme para indicar? Também vale filme protagonizado por mulheres. Deixe sua dica nos comentários.

Resumo:

Filme
Ponto Alto
Apenas uma Questão de Amor
Mostrar tanto o lado do gay quanto o da família no processo de aceitação
Shelter
Mostrar que dois caras podem constituir uma família feliz
Weekend
Mostrar que só porque um relacionamento foi curto não significa que não tenha sido verdadeiro
Além da Fronteira
Unir discussão política e religiosa à questão da homossexualidade
Hawaii
Mostrar que lutar contra sentimentos quase sempre é em vão
Garotos
Mostrar a descoberta da sexualidade na adolescência
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
Mostrar que amor é amor independente de barreiras 


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Segura esse forninho!

"Se a vida derrubou o forno na sua cabeça tenha calma, segura esse forninho! Aguente firme, não adianta chorar pedindo pela mãe. Se ele parecer pesado demais não tente ergue-lo muito depressa, acostume-se a seu peso, vá se livrando daquilo aos poucos [...]"



A cena é quase sempre a mesma: você está deitado na rede, tomando um copo de suco e sentindo a brisa balançar seus cabelos enquanto observa uma paisagem bonita.O local? Sua zona de conforto. Mas ai ela, a vida, decide que já está na hora de te fazer se mexer.Te joga da rede, derruba seu suco e deixa de ventilar seu rosto. Aqui não mais, se vira rapaz! Você, cabisbaixo, precisa dar adeus ao bem e bom e migrar rumo a novas terras. E agora?
Ser expulso da zona de conforto é particularmente doloroso para nós, jovens da tal geração Z. Queremos tudo para agora, queremos as coisas antes mesmo de saber que iremos querer. O imediatismo de hoje em dia frequentemente nos leva a duas ações: agir por impulso ou nem agir. Agir por impulso querendo voltar a ficar confortável o mais depressa possível ou não agir esperando que as coisas se resolvam sozinhas. Provavelmente nenhuma das duas coisas vai dar certo.
Se a vida derrubou o forno na sua cabeça tenha calma, segura esse forninho! Aguente firme, não adianta chorar pedindo pela mãe. Se ele parecer pesado demais não tente ergue-lo muito depressa, acostume-se a seu peso, vá se livrando daquilo aos poucos. Pode ser que o segredo esteja na frequência e não na agilidade. Ah, e não espere que alguém vá te ajudar... se ajudarem beleza, mas na verdade é mais provável que saiam por ai espalhando que você fez algo errado. Eita!
A sensação de que está tudo acabado só porque algo acabou pode nos impedir de enxergar que a vida é muito mais que um acontecimento só, seja ele bom ou ruim. Ciclos se abrem na mesma intensidade com que se fecham, isso foge a nosso controle. Se cada ciclo fechado significa um pé na bunda pra fora da nossa zona de conforto que assim seja, a cada forninho derrubado em nossa cabeça nos tornamos mais fortes. 
Não somos mais tão jovens para nos deixar levar pelos sonhos da infância ou pelos delírios da adolescência. Se a vida nos machucar vai doer, sabemos disso. Mas passa. Segura o forninho e não pare de dançar, o importante é não perder o ritmo. "Desce, sobe, empina e rebola, toda delícia, toda gostosa"





Se você é de Marte (ou só anda meio desligado mesmo)
e não entendeu de que diabos de forninho este louco
está falando, talvez esse vídeo te ajude: Segura esse forninho.
Giovana está bem, o forminho seguro e o bordão de 2014 consolidado.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Eu não sei mais rimar (a prosa)

Anotações de um ex rimante
(talvez você queira ler a nota no final da página antes  de continuar)


Existem aqueles dias em que você já acorda com saudade, levanta com saudade, vai trabalhar com saudade e volta pra casa com saudade. Estou num desses dias, mais especificamente na parte do "volta pra casa".

nota  nº1: Eu adoraria voltar num daqueles trens igual nos filmes,
com a cabeça encostada na janela e a neve caindo la fora.
Adoraria glamorizar minha saudade.
Mas o que tenho é um ônibus comum, numa noite fria e nada espetacular.
Se serve de consolo: a saudade já é glamurosa por si só.

Prefiro sentar no último banco, encostado na janela. Daqui a  pouco o ônibus lota, isso é o mais perto que chegarei de ter meu canto. Lá fora um casal se beija apaixonado, enquanto outro se abraça para driblar o frio.

nota  nº2: as vezes parece que a vida adora jogar felicidade alheia na nossa cara.
Dizer isso soa egoísta. Melhor guardar para mim.

Algo estranho sobre o processo de esquecer alguém é que só o fato de você lembrar da pessoa já joga seus esforços no lixo. E quanto mais você tenta não pensar, mais pensa.  Um círculo difícil de sair. Geometria enlouquecedora. Estou preso nesse circulo. E o pior é que minha inspiração ficou do lado de fora. Eu não sei mais rimar, e tenho medo de descobrir que só sabia quando rimava sobre você.
Passei as duas últimas semanas tentando compor algo, mas não sai, simplesmente não sai. Sinto-me como um violão desafinado. Só produzo notas erradas, em desarmonia. Você causou tudo isso. E eu detesto o poder que você tem de me desafinar.
As vezes sinto vontade de descobrir o que você anda fazendo, se está melhor que eu...

nota nº3: sinceramente, qualquer um está melhor que um cara divagando
sobre a ex namorada num ônibus lotado.

As vezes eu penso em procurar notícia suas, penso em ligar para suas amigas e perguntar como você está. Mas não. Melhor não. Meu pai tem razão, a ignorância pode ser uma benção. 

nota nº 4: "os leigos é que são felizes", completaria ele.

Daqui a cinco minutos chego em casa. Olho para o que acabei de escrever  e não me reconheço mais. É uma bagunça. É a minha bagunça. Sou eu. 20 anos. Solteiro. Ex rimante. Costumava cantar através de versos, hoje só sirvo para escutar. Se a situação é permanente? Não sei. Se os leigos é que são felizes, prefiro continuar sem saber. Obrigado pai, acho que o senhor tem razão.








Nota do autor:
Inicialmente, o texto acima foi todo escrito de forma "bonitinha", mas não transmitia o que eu queria passar. Ai surgiu a ideia de "bagunçá-lo", para que o leitor sinta o desconforto que é para um escritor passar por uma crise que comprometa sua escrita. O sentimento está lá, visível, quase apalpável, mas simplesmente não consegue ser encaixado no contexto. É mais frequente do que vocês imaginam, inclusive para mim.
"Eu não sei mais rimar" é o nome de um pequeno projeto que estou desenvolvendo. Consiste em um texto em poesia e outro em prosa que, conforme o título sugere, dispensa quase que totalmente as rimas. O tema e a situação descritos tanto na prosa quanto na poesia permanecem o mesmo. A ideia principal é mostrar como a alteração no estilo da escrita muda a percepção do leitor em relação ao tema tratado. Tema, é claro, voltado aos sentimentos. Vocês acabaram de ler "a prosa". Semana passada postei "a poesia" (para ler clique AQUI). Coisa simples, como deve ser a escrita, mas ambicionando ser profunda, objetivo que vocês é quem dirão se foi alcançado.




terça-feira, 15 de julho de 2014

Eu não sei mais rimar (a poesia)

Pedaço de papel qualquer, 
banco de ônibus qualquer, linha 0254
São Paulo, 19:35hrs.
O termômetro de rua marca 11ºC e não chove.

matemática louca
números inexatos
O especialista diz que o resultado final não é satisfatório
mas a totalidade nem é mais meu objetivo...
Fragmentado
Repartido em mil
Multiplicam-se as dores, subtraem-se amores
Um mais Um não são dois
ora pois...
Me explica então
Como pode ser
que dez por cento de mim é esperança
vinte por cento conformismo
trinta por cento de mim é cansaço
quarenta por cento indiferença
cinquenta por cento de mim é lembrança
sessenta por cento saudade
setenta por cento de mim é amor
oitenta por cento ainda é você
noventa por cento de mim diz que é burrice
cem por cento prefere não escutar

Os números não batem
Não faz sentido...
Deixa estar
Talvez a ignorância seja um presente
Talvez meu pai esteja certo
Os leigos é que são felizes.
É... talvez.









Nota do autor:
"Eu não sei mais rimar" é o nome de um pequeno projeto que estou desenvolvendo. Consiste em um texto em poesia e outro em prosa que, conforme o título sugere, dispensa quase que totalmente as rimas. O tema e a situação descritos tanto na prosa quanto na poesia permanecem o mesmo. A ideia principal é mostrar como a alteração no estilo da escrita muda a percepção do leitor em relação ao tema tratado. Tema, é claro, voltado aos sentimentos. Vocês acabaram de ler "a poesia". Semana que vem tem "a prosa". Coisa simples, como deve ser a escrita, mas ambicionando ser profunda, objetivo que vocês é quem dirão se foi alcançado.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mudar o Foco

Ele me fitou, sério, e perguntou:

- Vovô, é possível acabar com um amor não correspondido?
Refleti por um instante, pensando na coisa certa a dizer. Respondi:
- Se você irá conseguir eu não sei, mas precisa tentar. Ou você acaba com ele ou ele acaba com você.
- Mas como um amor pode acabar conosco?
- Amor não correspondido quando guardado por muito tempo vira mágoa. E mágoa é o veneno mais mortal que conheço. Te mantem vivo enquanto te mata silenciosamente.
- Então como faço isso? Como apago um amor?

Ele me pegou! Não sabia ao certo o que responder. Como apagar um amor? Ao longo dos meus setenta anos de vida nunca parei para pensar nisso. Se a humanidade soubesse da resposta já teria patenteado a fórmula...
Ele percebeu meu silêncio, abaixou a cabeça e saiu da sala. Como apagar um amor não correspondido? Eu deveria ter lhe dito que o tempo faria isso, o tempo se encarregaria de apagar o que fosse preciso. Mas para falar a verdade não acredito muito nessa história. É genérico demais. Não se pode apagar do coração aquilo que foi sentido mas nunca consumado. 
A verdade é que todo amor deveria ser vivido. Mas as coisas não são assim. O "não" está por ai, e não somos imunes a ele. Mas sobreviveremos. Apagar talvez seja isso! Nós sobreviveremos aos amores não correspondidos mesmo que nunca os superemos de fato. Se um amor não cura outro, pelo menos o tira do centro das atenções. São camadas sobre camadas que vão deixando antigos amores cada vez menos propícios a voltar a incomodar. Preciso contar isso ao meu neto. Nós sobrevivemos! E uma hora deixa de incomodar. Basta mudar o foco. 

- Refaça a pergunta.
- Como assim vovô? 
- Vamos. Refaça sua pergunta.
- Está bem... É possível acabar com um amor não correspondido?
- Não.
- Não?!
- Não. Mas você sobreviverá. E uma hora deixará de incomodar.
- Já passou por isso? 
- Sim.
- E deixou de incomodar?
- Não viu o tempo que levei para elaborar sua resposta?
- Sim, mas o que isso quer dizer?
- Quer dizer que se não tivesse deixado de incomodar eu teria a resposta na hora. Mas precisei pensar, precisei sentir as camadas dentro de mim para me assegurar que não incomoda mais. Na verdade, você até esquece da maioria deles... tempo não cura, tempo muda o foco. 
- Tem certeza?
- Não tenho certeza. Mas tenho experiência. Isso deve valer de algo...
- Vale sim vovô. Isso vale muito.

"Tempo não cura, tempo muda o foco." Eu deveria escrever um livro. Ah besteira, ninguém compraria. Mas eu deveria escrever mesmo assim. Meu neto leria. Quem sabe  ele não mostra aos amigos dele? É isso! Escreverei um livro! Mas só depois de um cochilo. Filosofar sobre amor esgota a gente. "Filosofar sobre amor esgota a gente"... puxa, isso vai ser interessante...



domingo, 22 de junho de 2014

Resenha: Will&Will

"Você gosta de alguém que não pode retribuir seu amor porque é possível sobreviver ao amor não correspondido de uma forma que é impossível no caso do amor correspondido."

Que tal convidar um amigo para escrever um livro junto contigo? Vamos fazer assim: você escreve sobre um personagem e eu sobre outro, em capítulos alternados. Em determinado momento da história nossos dois personagens se encontram e seguem juntos rumo a um desfecho em comum. Se interessou? Pois bem, John Green e David Levithan também acharam a ideia bacana; E assim nasceu Will&Will, obra escrita em conjunto pelos dois autores.

W&W conta a história de dois adolescentes americanos que não sabem da existência um do outro e vivem vidas completamente diferentes. Até ai nada de anormal, exceto pelo fato dos dois terem exatamente o mesmo nome: Will Grayson. Como diferenciar os dois Will’s que protagonizam a história? Vamos primeiro falar das características de cada um...

Deixemos que o primeiro Will se auto-defina: "Não muito inteligente. Não muito bonito. Não muito legal. Não muito engraçado. Este sou eu: não muito." Aprofundando um pouco mais podemos dizer que Will Grayson I é um estudante do ensino médio que cometeu um "suicídio social" certa vez ao defender publicamente o gay mais gay da escola: Tiny  Cooper. Como resultado, Will foi excluído dos grupos sociais
As duas capas brasileiras de Will&Will
da escola e acabou se tornando grande amigo de Tiny. Will não é gay, mas não vê problema nenhum em quem é, por isso defendeu Tiny. Só não achava que seria excluído por isso. O mais interessante deste Will é sua tentativa de se manter à margem do amor e dos relacionamentos amorosos. Não consegue, é claro. John Green fica a cargo dos capítulos protagonizados pelo primeiro Will.

O segundo Will tem a mesma idade do xará, mora nos arredores de Chicago. É pouco sociável, não tem amigos e enxerga as coisas com um olhar bastante obscuro. Ele é gay não-assumido e mantem um relacionamento virtual com Isaac, garoto que ele nunca viu pessoalmente, mas que acaba sendo sua "luz no fim do túnel". O Will gay, depressivo e mau-humorado é criação de David Levithan, que escreve seus capítulos sempre em letra minúscula.

O livro segue contando paralelamente as histórias dos dois Will Grayson’s até que em determinado capítulo, mais ou menos no meio do livro, Will Grayson conhece Will Grayson no centro de Chicago. Era um dia péssimo para os dois, o que provavelmente propiciou uma espécie de laço entre os garotos. O que os levou a se encontrar e o que acontece depois são questões que só quem ler o livro terá o prazer de entender.

Não falei muito a respeito de Tiny Cooper mas garanto que ele é um dos personagens mais carismáticos e divertidos que você irá conhecer. "Fabuloso", como ele mesmo costuma se definir. Aliás, todos os coadjuvantes do livro tem papel fundamental na vida dos dois protagonistas, e isso é fantástico.

W&W é uma obra divertidíssima, é como se você estivesse lendo um seriado adolescente. O livro é carregado de amor, amizade, risadas, muita música e, acima de tudo, carrega uma lição muito bonita de respeito às diferenças. O fato de dois autores escreverem simultaneamente confunde um pouco no começo mas logo se mostra eficiente. O final do livro, que quase sempre me decepciona em livros de Green, desta vez agradou, e foi até emocionante. A frase que escolhi para abrir esta resenha é uma das que mais me marcaram, subam a tecla de rolagem e a leiam novamente. John Green faz essas coisas: solta frases de efeito aparentemente bobas mas que escondem reflexões profundas. 

Quando terminar W&W você sentirá falta dos personagens, pode apostar. Mas para isso, você precisa começar a ler. "porque todo mundo acredita que deveria ser possível só continuar sendo arrebatado e arrebatado pra sempre, sentir o fluxo de ar no rosto enquanto se é carregado... e isso deveria ser possível. a gente deveria poder ser arrebatado para sempre." É isso ai.



Mais sobre Will&Will

"[...] quando as coisas se quebram, não é o ato de quebrar em si que impede que elas se refaçam. é porque um pedacinho se perde - as duas bordas que restam não se encaixam, mesmo que queiram. a forma inteira mudou." 

"A verdade pura e simples
Raramente é pura e nunca simples de fato."

“Tenho a sensação de que minha vida está muito dispersa neste momento. Como se fosse um monte de pedacinhos de papel e alguém ligasse o ventilador. Mas falar com você me faz sentir como se o ventilador tivesse sido desligado por um tempo. Como se as coisas pudessem fazer algum sentido. Você junta todos os meus pedacinhos, e sou muito grato por isso.”


Quer mais John Green? Aqui tem:


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Crônica: CTRL + Z

Isso foi depois, depois do amor.

(CTRL+Z)
E ai acabou.
E antes você disse que não conseguia mais me amar
E antes eu estava me perguntando o que eu havia feito de errado
E antes já não conversávamos mais
E antes você parecia entediado quando conversávamos
E antes minhas manias começaram a te irritar
E antes você não lia mais os bilhetes que te escrevia
E antes alguma coisa havia mudado
E antes nos beijávamos ao som daquela música que sempre te emocionava
E antes brigava comigo quando dizia que preferia Gil à Caetano
E antes tínhamos uma sintonia impressionante
E antes passamos a conversar mais e mais
E antes eu realmente queria me aproximar de você
E antes havia algo no seu olhar, no seu jeito de falar
E antes eu te enxerguei
E antes eu te vi
E antes eu te olhei
E antes eu estava bem comigo mesmo
E antes... eu gostaria que tivesse parado por ai
Isso foi antes, antes do amor.
(ERROR)

E agora está tudo errado, a ponto de não saber se conseguirei consertar.
E agora essa maldita insegurança permeia minha vida
E agora tudo que eu mais queria era que as coisas fossem tão fáceis  quanto um CTRL+Z
E agora eu percebo que não se pode excluir sentimentos sem excluir o que sou
E agora eu me pergunto, e agora?
E agora, garoto, e agora?


Foto: Paulo Dias




quinta-feira, 22 de maio de 2014

Poema: Partilha

As palavras que te dei
são suas, pode ficar
não as quero de volta.
Os sorrisos que me deu são meus
não que vá usá-los novamente
é que impregnaram feito tatuagem.
Os discos dos Beatles
os livros do Leminski
os filmes do Allen
a coleção de bonequinhos Star Wars
fique com tudo
não quero nada.
A ordem é desapegar
desagregar.
Outros filmes, outras músicas
outro poeta favorito, outro alguém.

Ele vem, eu sei que vem
por isso a urgência
quero preparar a casa, o coração.
Sobre nós
a partir de hoje estamos em paz
aperte minha mão
estou jogando uma pá de terra sobre tudo isso
você não me conhece mais.
Cadeado sem chave
canção sem clave
E quanto a nossa história
Poema sem rima
selado com silencio eterno.
Não que eu não tenha gostado
é que já doeu demais
em mim e em você.
Se não tiver mais nada a dizer
eu também não tenho.
não mais.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Entrevista: Daysi Bregantini

Proprietária e editora-chefe de uma das maiores revistas sobre jornalismo cultural no Brasil fala sobre os prazeres e desafios de manter uma revista nos dias atuais

Reportagem: Paulo Dias, Bianca Camargo, Taisa Barcelos,
 Náliny Andrade, Lohaine Trajano e Gustavo Nascimento


S
e para alguns jornalistas conseguir atuar em Jornalismo Cultural é uma questão de receber uma oportunidade, para Daysi Bregantini foi uma questão de criar a oportunidade. Após vinte anos trabalhando com assessoria de comunicação, a Paulista de 60 anos resolveu que era hora de começar a fazer o que realmente gostava. Saiu do emprego e fundou aquela que se tornaria uma das mais respeitadas revistas sobre jornalismo cultural do Brasil atual, a Revista Cult. Daysi recebeu nossa reportagem em seu escritório, na Vila Mariana, e numa conversa de cerca de uma hora falou sobre a revista, os desafios da profissão que escolheu e o futuro que vê para o jornalismo cultural.

Gostaríamos de começar a entrevista tentando entender como funciona a produção de uma crítica cultural na Revista Cult.
Daysi: É uma revista que não tem uma fórmula pronta, nem uma fórmula engessada. A gente trabalha pouco com fórmulas e com projetos. 
A gente procura fazer uma crítica ampla, abordando a questão da educação, da dificuldade do acesso ao conhecimento. A crítica que a Cult faz eu chamaria de uma crítica mais social. A crítica literária que a fazemos, por exemplo, no sentido de resenha de livro, a gente só publica livros que a gente gosta, só publica peças que a gente gosta. Então selecionamos pelo nosso critério editorial, mas sempre selecionando e falando do que há de melhor; A gente jamais vai fazer alguma coisa falando mal, nesse sentindo. Entendeu?  O que é ruim, a gente nem publica. Vamos falar mal pra quê? Em termos de crítica social, eu diria que somos uma revista de esquerda , pois nos colocamos  muito favoráveis a um movimento que sirva para abrir os olhos de quem está no poder, de que tem alguma coisa muito errada acontecendo.

Como você analisa o atual cenário da crítica cultural no Brasil?
Daysi: Eu acho que está péssimo. Falando um pouco de crítica literária... A crítica literária de qualidade hoje ela é produzida dentro das academias. Acho que nós temos grandes críticos literários na USP, na UNICAMP, enfim em várias universidades, mas presos nos muros acadêmicos. Eles vão pouco à mídia. A figura do intelectual público aqui no Brasil é um pouco mais rara. Então, antigamente nós tínhamos críticos literários como Antônio Cândido que hoje tem 90 e tantos anos, ele era um crítico literário que escrevia no jornal. Enfim... não vejo novos críticos literários surgindo na imprensa. Tem na academia. Tem grandes críticos maravilhosos dentro das grandes universidades. Poucos falam à imprensa. Alcir Pécora, que é um grande crítico literário da UNICAMP, por exemplo, ele escreve na Cult. Porque é uma revista considerada quase que acadêmica. Mas você não acha esses críticos escrevendo na grande imprensa.  Na Veja, Na Isto É. Eu não considero a Cult grande imprensa, sabe? A Cult é uma revista pequena e de uma editora independente. A Cult é uma revista alternativa. Na grande imprensa esses perfis quase não estão mais presentes.

Mas eles não estão presentes porque não querem, ou porque a mídia não aprecia?
Daysi: Tem duas questões aí. Eu acho que a imprensa de um modo geral não dá mais espaço mesmo. Alguns cadernos importantes como o Sabático do Estadão acabou. E era um caderno que eu, pessoalmente adorava. E a ordem dos jornais atualmente é escrever resenha em dez, quinze linhas. E um crítico intelectual não se propõe a escrever uma crítica ou resenha em dez, quinze linhas. Então, por exemplo, na grande imprensa uma critica literária tem cerca de três mil caracteres. Aí você pega um crítico que tem uma formação acadêmica sólida... Ele não vai escrever nada em três mil caracteres. Então eu acho que a imprensa se simplificou demais, que a imprensa acha que o leitor médio não gosta de ler. E ele é o quê? Robô? E o crítico mais sério se recusa a escrever dez linhas sobre um livro. Fica um impasse. Sobram revistas acadêmicas que circulam em universidades e são muito boas - mas com circulação minúscula - e a Cult que é uma revista que sofre muito por falta de dinheiro, que tenta fazer um jornalismo cultural independente mas está com a corda no pescoço.

Até que ponto a CULT tenta manter a linha editorial imune à visão mercadológica de crítica cultural?
Daysi: Tentamos nos manter totalmente (imunes). Primeiro que a gente não tem uma lei de incentivo. Eu poderia até correr atrás, afinal minha revista tem 17 anos e ninguém vai me negar com a Lei de Incentivo. Mas eu nunca pedi. Eu não quero. Eu gosto da gente independente. E a gente é independente também por um principio nosso. O que valorizamos aqui é a pequena editora. É aquele cara que está começando e ninguém publica.  A gente tem uma capa com o Criolo (cantor paulistano) e era uma capa sobre rap. A gente procura estar ligada às periferias e trazer a produção das periferias, trazer a linguagem da periferia pra esse quadrilátero “burguesão”, que é o quadrilátero da indústria cultural. Um quadrilátero que só tem lei do governo para pegar um monte de dinheiro e fazer uma exposição, e eu odeio isso. Então, eu acho que a gente é totalmente isento mesmo. Na Cult não entra o grande editor, a gente vai procurar lá em Minas (Gerais) uma editora pequena que está lançando um cara novo e a partir disso fazemos uma grande matéria.


Já aconteceu de alguma crítica veiculada na CULT gerar repercussão negativa? Em casos assim, existe algum procedimento para “acalmar os ânimos” ou o debate, mesmo que acalorado, faz parte do papel da crítica?
Capa com Ivana Bentes
gerou repercussão nas redes sociais
Daysi: Várias vezes. Recentemente com a capa da Ivana Bentes dando o dedo do meio. A gente recebeu muitas cartas elogiando, até porque tem que ler a entrevista pra saber para quem ela está fazendo isso. Não é para o povo, entendeu? Ela estava fazendo isso para quem não merece respeito, para quem não se dá ao respeito. Que rouba, que trapaceia; na verdade ela está fazendo isso para a classe política. Então, a gente recebeu tanta carta, mas tanta que inclusive postamos no nosso Facebook uma carta em questão. Ela dizia que nós estávamos dando mau exemplo para as crianças. A mulher, como presidente de uma associação dizia que as mães estavam ensinando o filho a não fazer isso e a gente estampa na capa uma mulher fazendo isso. Acho que foi uma repercussão nesse sentido: recebemos muita crítica sobre isso, mas, por outro lado, teve muita gente que adorou.

É cada vez maior o número de profissionais com formação em outras áreas que não a jornalística produzindo críticas. O que você acha disso?
Daysi: Eu não vejo problema nenhum. Meu crítico de teatro não é jornalista. Ele é professor da UNICAMP, ele é um acadêmico.  Nosso crítico de teatro, é um doutor em teatro também. Mas na redação, eu só contrato jornalista diplomado. Os críticos como você diz, são       colaboradores, vamos chamar assim, a gente convida um colaborador especialista em uma área do conhecimento. São só especialistas. Até porque, no final das contas o jornalista não é especialista em nada, né? (risos)

A reportagem “Coisa absurda, senão grave”, publicada na edição 188 da CULT (pelo jornalista Muniz Sodré), critica as novas diretrizes do MEC em relação aos cursos de jornalismo e diz que tais diretrizes “separam o jornalismo da comunicação”. Como se dará essa separação?
Daysi: O jornalismo hoje faz parte da comunicação. Ele deixará de estar vinculado ao chapéu da comunicação para fazer parte de um curso técnico. Deixará de ter reflexão, deixará de ter literatura, para se transformar num curso técnico. Eu acho que o Muniz Sodré está certíssimo e é absurdo o que o MEC está fazendo com as faculdades de jornalismo. Está fazendo não, vai fazer. Porque as tais diretrizes estão para serem aprovadas agora mais irão entrar em vigor em janeiro de 2015.

Mas os cursos de jornalismo no Brasil atualmente já não são fracos?
Daysi: Eu acho que de um modo geral o ensino no Brasil está muito ruim. O que está muito pior é o ensino básico. Então, alguém chegou na faculdade de jornalismo e fez um péssimo colegial. É irreparável. Se você for mal alfabetizado você nunca vai ser um bom jornalista. Você lida com a palavra? Então, às vezes a faculdade pega um aluno e vem com um distanciamento muito grande do vocabulário, da gramática e a faculdade não dá conta de resolver tanta carência. Eu acho que o Brasil está muito ruim no ensino básico e tem muita faculdade querendo cobrar caro com péssimos professores. Eu acho que o sistema de ensino está muito ruim. E sim, as novas diretrizes só irão piorar isso.

Você se declara a favor do diploma de jornalismo. Gostaria de comentar algo a respeito?
Daysi: Se ele existe, tem que respeitar. Eu penso assim, eu não acho justo que você que foi lá, estudou quatro anos, fez trabalho, fez TCC, leu, gastou dinheiro e se forma. E o que fez economia é contratado para trabalhar de jornalista. Eu não faço isso. Porque vai contra o meu coração, a minha ética... não sei explicar. Eu penso: Por que vou contratar um economista, um cara que fez história e não quem fez jornalismo? É questão de respeito a uma lei. O meu partido, o PSOL, é contra o diploma. Então eu fico encima do muro. Mas, com exceção de colaboradores (filósofos, acadêmicos, etc) eu só contrato quem se formou. É meu direito, não é? A empresa é minha e eu faço o que eu quero. Eu só contrato quem tem diploma e pronto!

Mudando um pouquinho de assunto, vamos falar sobre mídias digitais. Você acredita que a revista impressa está estabilizada ou tende a perder ainda mais espaço para as plataformas digitais?
Daysi: tende a perder cada vez mais. O preço do papel e da bobina são muito caros. Então, pra você publicar a revista, tem que comprar papel, que é uma fortuna, e ainda tem que ter uma gráfica para rodar, e a gráfica é outra fortuna. Mas o pior, o mais grave no Brasil é que tem um distribuidor só. Como apenas uma distribuidora atua um país desse tamanho? Tem muito lugar que não sabe o que é a revista Cult mesmo com a revista tendo 17 anos. Voltando aos custos, 50% do preço de capa vai para o distribuidor. O resto você tem que desembolsar para o papel, impostos, gráfica e mão de obra. Tudo isso torna a revista um meio muito caro.

E como é a relação da revista Cult com os novos meios digitais?
Daysi: é assim, é: eu gosto do papel. Eu sou de uma geração que ama o papel, e eu já tenho 60 anos. Para mim o mundo virtual é bem distante das minhas referências. Eu male- male sei passar email, então enquanto tiver como fazer impresso, a Cult será impressa. Eu (a revista) estou (hospedada) no UOL, a gente tem mídias sociais, Facebook, Twitter, tudo isso. O nosso Facebook acho que tem mais de 40.000 curtidas e o Twitter da Cult tem bastante (seguidores) também. Então, eu sei do poder das mídias digitais, mas eu acho que por enquanto a Cult vai continuar no papel. A minha verba, o meu dinheiro pra investir é na revista impressa.

Mas com a expansão do digital, você não pensa em investir nessa plataforma?
Daysi: Eu não. Eu vou continuar investindo o pouco dinheiro que eu tenho no papel. Se eu tiver um dinheirinho, eu vou melhorar o tipo de papel ou vou colocar uma sexta cor. Ainda não vou investir numa plataforma digital. Eu tenho site, meu site tá dentro do UOL, tenho Facebook, tenho Twitter, tenho tudo isso que vocês gostam, mas o meu investimento financeiro é na revista impressa. Eu prefiro investir em um bom fotógrafo, que fez um belo trabalho na ultima edição (de março), do que investir no meio digital. Querido, eu sou velha (risos). É isso.

Qual é a tiragem da Cult? Costumam vender tudo?
Daysi: 35.000. E geralmente vende tudo. Depende muito do mês, depende muito de vários fatores como capa, mês de férias, por exemplo, julho é ruim, janeiro é fraquinho. Mas a Cult, hoje é a revista que, em percentual, é a que mais vende em banca, percentual, não em números, porque a VEJA, óbvio, vende 1 milhão mensais, mas a Cult vai vender em média 60, 70% do que ela põe em banca. É assustador pensar que só estou fazendo as coisas aqui porque ainda há o leitor que compra. Mas é uma classe mais intelectual.

A Cult investe não só em Jornalismo Cultural, mas também em atividades culturais. Gosta dessa diversificação?
Daysi. Sim. A gente tem um centro cultural na Vila Madalena. É nosso e chama-se Espaço Revista Cult. Tem um monte de pôsteres nas paredes, lançamento de livros, tem livraria e exposições de fotografia, é lindo lá, é lindo mesmo. Quem administra é a minha filha que tem a sua idade (35 anos). A Fernanda. Ela também estudou jornalismo e é responsável pelo espaço Revista Cult e os congressos que realizamos. Eu vou pouco lá porque é na Vila Madalena e eu sempre fico aqui (na sede da revista, na Vila Mariana).

Mudando um pouco de assunto, como a Cult se articula para atender o público?
Daysi: a relação vem de todos os meios: carta, internet, telefonema, etc. Recebo cerca de uns 2 emails por dia. Tem dia que chega mais, mas a média são dois. E eu falo com todo mundo que pede, não me recuso a falar com ninguém. Há casos e casos, por exemplo, se você for lá em nosso Facebook você vai ver: tem um cara que xingou a gente, dizendo tem muito erro de revisão na revista de março, aí a gente entrou na página da revista e pediu: "então o senhor pode, por favor, mostrar sua identificação e quais são os erros?". A pessoa não apareceu... Mas a gente procura sempre ir até o fim com os questionamentos do leitor. São poucos então temos que procurar tratar bem (risos).

Tem algum conselho, dica que você queira dar aos interessados por trabalhar com jornalismo cultural?
Daysi: Estude a sua língua. Estude outras também, mas principalmente a sua. Nossa língua é o maior patrimônio que podemos ter.  Vocês gostam de Criolo? Eu gosto e ele fala assim: você é responsável pelo seu sonho. Se você não defendê-los, quem vai defendê-los por você? Ninguém, né. E eu acho lindo. Eu acho que quando a gente é jovem tem que ir atrás mesmo do sonho. Quando eu digo sonho, eu digo o mundo ideal ou um objetivo. Nasci no interior, há 600 quilômetros de São Paulo, lá no fim do mundo, eu vim com a mochila, fazia jornalismo cultural, demorou muito pra eu conseguir. Trabalhei 20 anos com assessoria antes de entrar no jornalismo cultural. Mas não desisti. Fui paciente e quando tinha sentido que chegou a hora montei minha revista e hoje estou aqui, apesar da instabilidade faço o que amo e seguirei fazendo enquanto tiver forças.


Entrevista originalmente elaborada para a disciplina Jornalismo Cultural e Científico. Professor Fábio Cardoso, Universidade Anhembi Morumbi/2014.