segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poema: Universo Particular

'A Lua' (1928), Tarsila do Amaral

Em uma página em branco
ele desenhou o nascer do sol do jeito que queria que fosse
colou no tronco da árvore
e ficou ali apreciando sua paisagem artificial.

No chão de concreto
pegou um pedaço de giz
desenhou flores e grama do jeito que queria que fossem
e ficou ali deitado sobre seu gramado artificial.

Na parede suja de seu quarto 
desenhou um coração
e dentro dele colocou as fotos dos que queria que ali estivessem
e ficou admirando seu enorme coração artificial.

Antes de deitar em sua cama pequena e de colchão duro
desenhou no teto todas as estrelas que conseguiu desenhar

e passou o resto da tarde ali, 
fitando seu universo particular.

Saiu até o lago mais próximo
com uma vara e um anzol na mão.
Se prostrou na beira do rio 

e atirou a linha o mais longe que conseguiu.

De isca usou o que de mais doce tinha,
um restinho de subjetividade empoeirada sob camadas de frustração.
Ficou ali, imóvel por horas
tentando capturar qualquer coisa que tornasse a realidade mais palpável.

Quando sentiu a linha puxar,
agarrou-a com força e deu um tranco para trás.
O que quer que ele houvesse figado puxou com tanta força
que o derrubou no rio.

Um rápido agito.
Três suspiros.
Calmaria...
Não havia mais artificialidade.



observação: Quem é o menino? O que representam a vara e o anzol? O que representa o lago? Fica no ar para reflexão. O quadro escolhido para ilustrar esses versos é da pintora brasileira Tarsila do Amaral e chama-se 'A Lua'.

3 comentários:

  1. Muito bom o poema, gostei de mais da parte Final, adoro escrever poemas tambem.

    Publiquei meu livro, se puder dar uma passadinha lá no blog fiz uma matéria sobre. Segue o link abaixo:

    http://www.blogdojoseagenor.com.br/2013/10/livro-o-caminho-do-renascer-jose-agenor.html

    José Agenor

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  2. Acabei de conhecer o seu blog e gostei (parabéns!)

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