sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Resenha - Morte Súbita

"Escolher é algo perigoso: quando escolhemos, temos que abrir mão de todas as outras possibilidades."

Quando terminou a saga Harry Potter, J.K. Rowling tinha um desafio pela frente se quisesse manter sua bem sucedida carreira de escritora: mostrar que tinha talento para ir muito além de somente escrever sobre um mundo mágico habitado por bruxos e seres espetaculares. Eis que veio Morte Súbita, primeiro livro realmente adulto da autora inglesa. Será que ela havia conseguido? Depois de uma leitura demorada (são mais de 500 páginas) pude ter certeza que sim, ela havia conseguido.
A história é bastante complexa para ser resumida, mas tentarei: imaginem uma geografia espacial da seguinte maneira: há uma cidade grande (Yarvil) e ao seu lado um vilarejo emancipado (Pagford). Entre Yarvil e Pagford há uma colina. Eis que os moradores mais pobres de Yarvil, cansados de serem ignorados pela administração local, invadem a tal colina e começam a formar o que chamamos vulgarmente no Brasil de favela (Fields, no caso). O problema maior começa quando a favela cresce muito rapidamente e os
moradores do local, sem nenhum tipo de saneamento básico, começam a  buscar serviços como saúde e educação no vilarejo de Pagford. Surge uma briga: Pagford não quer pagar impostos para manter estrutura para seus cidadãos e também para os cidadãos de Fields (que tecnicamente são responsabilidade de Yarvil). Dentro do vilarejo surgem dois grupos: os pró-Fields, que defendem uma solução passiva e gradual para o conflito, e o anti-Fields, que defendem a expulsão imediata de qualquer vestígio de Fields na vida de Pagford.
O lider pró-Fields, Barry FairBrother, foi morador da favela quando pequeno e é a prova viva que investir nos mais pobres gera resultados positivos. Do outro lado, o líder anti-Fields, Howard Mollison, defende que "pau que nasce torto morre torto" e que Fiels é um lugar sem salvação, povoado por drogados, prostitutas e tudo de ruim produzido pela sociedade. A briga parece boa, principalmente porque os dois são membros influentes do conselho local (espécie de vereadores aqui no Brasil) - sendo que Howard é o líder do Conselho e Barry o conselheiro mais popular. Tudo muda quando Barry, numa noite qualquer, sofre um aneurisma cerebral e simplesmente... morre. O pilar que segurava de igual para igual o peso do edifício desabou. E agora? O que será dos pró-Fields e principalmente dos moradores da comunidade? Só lendo para saber.
O jogo político entre prós e anti-Fields se esquenta ainda mais por um motivo: com a morte de Barry, a cadeira dele no conselho fica vaga, à disposição de um novo conselheiro - o que chamamos de vacância - (daí o nome original do livro, The Casual Vacancy). Candidatos para ocupá-la surgirão aos montes, talvez alguém consiga restabelecer a briga comprada por Barry e  fazer as coisas se igualarem novamente... será?
Morte Súbita é uma verdadeira aula de como se fazer uma boa narração. Apesar de ter muitos personagens - cerca de trinta - as histórias fluem igualmente, sempre amparadas a lembrança do falecido Barry. O livro não alivia em momento algum, é violento, angustiante e tem um final bastante reflexivo (já adianto que nada feliz). Alguns personagens chamam mais atenção que outros (eu, particularmente, me apaixonei por Krystal e por Samantha), mas a verdade é que todos tem algo a contar... e a esconder. Em Morte Súbita tudo parece ser bastante provisório e instável, principalmente as aparências. 
Creio que a principal mensagem que Rowling quis passar com a obra é o quanto a sociedade consegue se fazer de cega diante das necessidades dos que estão à margem, e que muitas vezes é necessário que uma tragédia aconteça para que as pessoas escolham, enfim, abrir os olhos e fazer algo. É um livro excelente que merece sua atenção.

Principais personagens:

Barry Fairbrother e sua esposa Mary Fairbrother.
Howard Mollison e sua família (sua esposa Shirley Molisson, seu filho o advogado Miles Molisson, e Samantha Molisson, esposa de Miles)
Parminder e Vickam Jawanda (casal de médicos, pró-Fields, têm alguns filhos, a que tem relevância para a história se chama Sukhvinder)
Terri, Krystal, Cath e Robbie Weedon (família completamente desestruturada moradora de Fields. Cath é avó de Terri, que é mãe da adolescente Krystal e do pequeno Robbie. Terri é viciada em heroína e vive entre a crise e momentos de recuperação)
Simon, Ruth e Andrew Price (Simon é um operador de máquinas que está interessado na vaga do conselho, Ruth é enfermeira e Andrew é o filho adolescente do casal)
Colin, Tesssa e Stuart Wall (São pró-Fields, Colin é diretor do colégio local, Tessa é sua esposa  e orientadora vocacional e Stuart - mais conhecido como Bola - é seu filho adotivo adolescente e problemático)
Kay e Gaia Bawden (Kay é a assistente social que cuida da família Weedon e Gaia é sua filha)
Gavin Hughes (melhor amigo do falecido Barry, trabalha com Miles e tem um caso amoroso com Kay)

Dados do livro:
Nome: Morte Súbita (The Casual Vacancy)
Autora: J.K. Rowling
Ano: 2012/ ING
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 501

Algo a mais: Quem termina de ler Morte Súbita fica com um questionamento na cabeça: "Caramba, esse livro daria um ótimo seriado de televisão!" Pois bem, a BBC adorou a ideia e comprou os direitos da obra para fazer uma adaptação à TV. Os trabalhos de roteirização já começaram e é provável que a série estreie já em 2014.

Fontes:
Em primeiro lugar o próprio livro.
Imagens:  Capa e Foto da autora
Informação de que o livro virará seriado: Portal IG

3 comentários:

  1. Acabo de ler a resenha. Achei-a muito boa, além, é claro, de muito bem escrita. Esse livro que já estava na minha lista de 'livros para ler', subiu umas 30, 40 posições. Estou ansioso para saber o que acontece aos moradores de Fiels. :) #Thanks #mortesúbita #Parabénspelaresenha #seguindoseublog

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  2. Para mim Morte Súbita realmente consagrou a J.K. Rowling como escritora após Harry Potter, eu era fã e me tornei ainda mais. Confesso que senti vontade de esganar os personagens, principalmente os adultos, em certa de 95% do livro e aí esta algo que me fez gostar tanto. Sem contar que, apesar da história girar em torno dos adultos, os jovens, mesmo indiretamente, moveram grande parte da trama. Eu ainda vivo uma eterna relação de amor e ódio com esse livro. O quê foi aquele final? Completamente inesperado, ao menos para mim. Já estava tão desacreditada que acabei não aceitando o final! Foi injusto e ao mesmo tempo tão real, como se houvesse a quebra da única inocência para assim haver ao menos o mínimo de redenção. Adorei a resenha!

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    1. Concordo com tudo o que você disse, com relação ao final fiquei com uma angústia no peito por um bom tempo pensando nele :C Obrigado pelo elogio ;D

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