quarta-feira, 27 de março de 2013

Carta: Querido Charlie

(este texto é uma homenagem ao melhor livro que já li na vida "As Vantagens de ser Invisível". Charlie me escreveu diversas cartas contando sobre sua vida, já estava na hora de retribuir.)


27 de Março de 1994

Querido Charlie,

Terminei de ler todas as suas cartas, me desculpe não ter respondido antes, na verdade foi você quem pediu que eu assim o fizesse.  Mas precisava falar contigo, nem que seja pela última vez. Não precisa me responder, sei que receberá e isso já é o suficiente.
Estava conversando com uns amigos sobre você e eles me disseram que estou louco por falar de quem  “não existe”. Confesso que fiquei magoado, não sei porque as pessoas fazem isso, jogar o que elas julgam ser a realidade na minha cara. Não estou louco, mas não espero que eles me entendam. Estou numa universidade perto de Patrick e a algumas horas de onde Sam estuda. Ela está ótima viu? Sei que vocês se falam com frequência, mas quis dizer mesmo assim.  Ontem estive com Patrick, puxa como ele é louco (e como amo isso nele). Imagine que estávamos nos sentindo infinitos  dentro de um túnel qualquer aqui na cidade quando ele sem querer troca a música da rádio. Acabou clima, acabou a sensação mágica, mas restaram muitas risadas, principalmente porque a música que começou a tocar era, digamos, de gosto duvidoso...
Querido amigo, estou escrevendo um livro sabia? Se chamará Jovens Para Sempre. Terminei o segundo capitulo esta semana e não imaginava que seria tão difícil colocar emoções no papel. Ainda aguardo saber o que aconteceu com o que você estava escrevendo. Se desejar, me mande a sinopse, quem sabe não posso ajuda-lo? Ah é, esqueci que não responderá esta carta...
Semana passada teve uma festa numa cidade aqui ao lado, eu e Patrick fomos juntos e estávamos ansiosos para ver Sam e porque ela disse que tinha uma surpresa. E realmente foi uma bela surpresa: Mary Elizabeth e Alice estavam a nossa espera! Foi uma das melhores noites desde que o ensino médio terminou, só não foi perfeita porque você não estava aqui.
Você se forma quando? Daqui a cinco meses correto? Pode apostar que estaremos todos lá, talvez você não me reconheça, mas eu reconhecerei você. E daremos um jeito.
Sam está mais linda a cada dia. Sei que ainda gosta dela e acho que devo te dizer que ela também sente algo especial por você. Fala em você sempre que nos encontramos. Com relação a mim continuo do jeito que você já sabe, na espera de dias melhores no amor. As vezes acho que estes dias nunca virão, outras vezes acho que amanhã pode ser um dia desses... só queria alguém que me entendesse sabe? Alguém como você, mas você não pode ser por razões óbvias. Patrick também não, somos tão amigos que seria estranho rolar algo a mais entende? Também não quero estragar nossa amizade, e esse negócio de amor geralmente faz isso com as amizades: as estraga.
Ah, esqueci de dizer: seu irmão é uma pessoa bastante legal! Nem parece fazer parte do time (onde todos são tão esnobes). Pude conhecê-lo quando fui visitar Sam. Não sei se ele te contou, provavelmente sim, mas ele está namorando uma garota muito bonita chamada Jessie. Ela me pareceu legal, e tem um gosto literário ótimo, sério.
Sabe Charlie, espero sinceramente que as coisas nos seus últimos meses de colégio estejam legais, ou pelo menos suportáveis. Pense que falta pouco para você se juntar a mim, a Patrick e a Sam. E os túneis desta cidade voltarão a ecoar Landslide. Sinto sua falta amigo, e sei que você sente a minha. Espero que meus amigos parem de me chamar de louco e passem a ver as coisas com um pouquinho mais de sensibilidade. Confesso que “sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim.” Talvez um dia eu entenda, talvez não. Talvez possamos descobrir juntos quando estivermos todos aqui. O que me conforta é saber que não demorará. Tomei a liberdade de gravar uma fita pra você, Patrick me ajudou (ele está cada vez melhor nisso), espero que goste. A última faixa é Asleep, pois sei o quanto ela significa pra você.
Guardei todas as cartas que você me escreveu nos últimos anos. Ainda olho a caixa de correio diariamente na esperança de novas notícias. Só gostaria de saber se você está bem, mas se você não quiser responder tudo bem, porque eu, sinceramente , também não saberia responder a esta pergunta.

Com amor,
Paulo.



quarta-feira, 13 de março de 2013

Conto: Dez "quases"

Andava pela rua, disperso, com o coração apertado e uma alma machucada. As pessoas corriam pra lá e para cá, menos mal, assim ninguém me notava. Estou realmente cansado de ver todos me perguntando "o que há comigo" como se, o fato de eu falar resolvesse alguma coisa. Talvez até resolvesse mas decidi guardar pra mim, mesmo que isso signifique sufocar.
Andava por ai, ouvindo Sober e pensando em como toda aquela letra fazia sentido. E eu queria que não fizesse, queria que fosse apenas um conjunto harmonioso de palavras e sons. Ah! Quem dera. E por mais que eu fuja, isso sempre me persegue... 

Eu quase sai de casa naquele dia, você quase quis que eu saísse
Eu quase montei no meu cavalo, você quase quis que houvesse lugar para dois
Eu quase descobri qual era a torre em que você estava presa, você quase quis me dizer
Eu quase lutei contra o dragão, você quase foi salva
Eu quase te dei um beijo, você quase retribuiu
Eu quase senti algo muito forte, você quase sentiu que era recíproco
Eu quase pedi sua mão a seus pais, você quase disse que sim
Eu quase fui seu príncipe, você quase foi minha princesa
Eu quase disse 'te amo', você quase me chamou de amor.
E a gente quase foi feliz.

Foi por pouco, coisa de segundos, coisa de vontade... vontade de ambas as partes. E eu não consigo parar de imaginar como seria se essa barreira tivesse sido transposta, e eu não consigo parar de imaginar como estaríamos hoje, e eu não consigo parar de ouvir Sober... e eu quero me livrar disso, e eu quero parar de pensar nisso, e eu quero me sentir vivo novamente.
Seremos eternamente culpados por pensar demais, por calcular demais, por agir de menos. Mas eu não a culpo por querer o melhor para você... culpo por não perceber que eu era esse melhor. O seu melhor, o príncipe errado que no final das contas só queria te amar... e ser amado. Perdoe-me se não foi o suficiente.



Sober (tradução)

E eu não sei
Isso pode partir meu coração ou me salvar
Nada é real
Até você deixar isso completamente
Então aqui vou eu com todos os pensamentos que venho guardando
Então aqui vou eu com todos os meus medos pesando em mim
Três meses e eu continuo sóbria
Cortei todas as minhas ervas daninhas mas mantive as flores
Mas eu sei isso nunca vai acabar realmente
E eu não sei
Eu poderia fracassar, mas talvez
No final da estrada eu possa vislumbrar uma parte de mim
Então não me apressarei, eu quero fazer direito
Sem comparação, pensar duas vezes, não, não desta vez
Três meses e eu continuo respirando
Tem sido uma longa estrada sem aquelas mãos nas quais eu deixei minhas lágrimas, mas eu sei
Isso nunca vai acabar realmente, não
Acorde!
Três meses e eu continuo aqui
Três meses e eu estou melhorando
Três meses e eu continuo sendo eu...
Três meses e isso está ainda mais difícil agora
Três meses e eu estive vivendo aqui sem você agora
Três meses yeah, três meses...
Três meses e eu continuo respirando
Três meses e eu ainda lembro disso
Três meses e eu acordei.


domingo, 3 de março de 2013

Crítica: O Lado Bom da Vida (filme)


O Lado Bom da Vida (titulo original Silver Linings Playbook) é um filme estadunidense de 2012, baseado no livro homônimo do autor Matthew Quick. O longa foi dirigido por David O. Russell e é protagonizado por Brandley Cooper e Jennifer Lawrence. Pertence aos gêneros drama, romance e comédia e se propõe a contar a história de Patrick Solitano e Tiffany Maxwell.
Patrick, popularmente conhecido como Pat, é um jovem professor que descobre estar sendo traído pela mulher, Nikki. Transtornado, ele fere gravemente o amante de sua esposa e acaba sendo detido. Por sofrer de transtorno bipolar é internado numa clínica psiquiátrica e é proibido de voltar a se aproximar de Nikki. Algum tempo após o ocorrido, consegue com a ajuda de sua mãe Dolores (Jacki Weaver), autorização para voltar a morar com ela e seu pai, também chamado Patrick (Robert de Niro). É muito interessante ressaltar a estrutura familiar em que Patrick está inserido: um pai que não consegue compreender o filho e um irmão exemplar e bem sucedido, que constantemente faz questão de “lembrar” isso a Pat. Voltando ao enredo principal: apesar de ter sido traído, Pat nutre esperanças de se reconciliar com Nikki e para isso pretende mostrar a ela que está bem em todos os sentidos, inclusive psicologicamente. Neste meio tempo conhece Tiffany, cunhada de um amigo. A moça acabara de perder o marido num acidente e também dá sinais de ter problemas emocionais. Mesmo se estranhando de inicio, Pat e Tiffany acabam criando uma amizade, regada a interesses em comum, que mais tarde tende a evoluir para algo a mais.
Desde que estreou no cinema, O Lado bom da Vida coleciona elogios da crítica especializada. Porém, quando o assunto é o expectador o filme gera um paradigma: de um lado pessoas que assistiram e amaram; de outro, fãs do livro que criticaram a adaptação pras telonas. Realmente o filme não é uma aula de fidelidade à obra de Quick, mas quando nos disponibilizamos a ir ao cinema precisamos saber diferenciar o universo literário do cinematográfico. Um diretor não precisa jurar fidelidade ao livro, aliás, nem deve. Desde que se mantenha a essência da história, o caminho percorrido por ele é livre. Portanto, não vá ao cinema esperando uma reprodução fiel do livro pois certamente sairá decepcionado. Mas se for livre de pretensões provavelmente gostará do que verá.
Mesmo com um final previsível, o filme consegue ser bom. Mostra que a vida é uma constante luta por dias melhores e que, tais dias, dependem quase inteiramente de nós mesmos. Pat adota a filosofia da positividade sempre, pois pensar positivo atrai coisas positivas. É o que ele chama de Excelsior. Destaque para as atuações de Cooper (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator) e para o veterano Robert de Niro (também merecidamente indicado ao Oscar, como Ator Coadjuvante). Aliás, algumas cenas entre Patrick pai e Patrick filho estão entre as melhores e mais emocionantes do filme.

E quanto a Jennifer? Não há como negar que boa parte da popularidade do filme se deve a ela, e que muito se fala acerca de sua atuação. Pois bem, a jovem de 22 anos está ótima no papel, faz a maioria das cenas muito bem. Mas houve certa ‘precipitação’ ao premiá-la com o Oscar de Melhor Atriz de 2012. Jenny é uma das melhores atrizes de sua geração, porém ainda precisa amadurecer um pouco mais. Em todo caso o prêmio já foi dado, resta-nos parabeniza-la.
Além das três indicações citadas acima, o filme também foi indicado ao Oscar em outras cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Roteiro Adaptado (hãm?!) e Melhor Edição. O filme também foi premiado em vários outros eventos e chegou a ganhar 1 Globo de Ouro e 1 BAFTA.
O Lado Bom da Vida é daqueles filmes que você se propõe a assistir e quando percebe já está completamente envolvido pela história. Talvez não seja o melhor filme de romance do ano e muito menos o melhor drama, mas uma coisa é certa: ele vai conquistar um lugarzinho na sua lista de filmes que valem a pena serem revistos. E será inevitável não se lembrar de Pat toda vez que enfrentar algum problema. O que ele nos diria num momento difícil? Positividade sempre pois o lado bom da vida é poder sempre seguir em frente!

Assista ao Trailer do filme: O Lado Bom da Vida (Trailer)

Fontes: