segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Aqueles dois

antes de começar, talvez queira ler isso aqui.

(15h26)
Desculpe. Claro, entre. Deixe eu pegar uma toalha para você se secar... Aqui está. Tem sido um dezembro chuvoso em São Paulo. Coloque essa bolsa ali. Não, estou bem. Só estou... surpreso. Quando você... Por que não me... Sim, termine de se secar. Vou preparar um café para nós.

(15h50)
Açúcar? Sim, está amargo. Claro que me lembro. Quando você... quando voltou? Da última vez que tive notícias suas soube que estava em algum lugar das Cordilheiras Chilenas. Carol havia perdido o contato contigo. Estava furiosa por você "ter se esquecido dela". Sim, eu sei que não se esqueceu. Deve explicações a ela. Depois vocês conversam. Secou direito esse cabelo? Vai ficar resfriado. Desculpe, sabe como sou. Essa música? When We Were Young. A nova da Adele. Sim, música de velho. Tenho alma de velho Carlos, sabe disso.

(16h04)
Por que bateu em minha porta na última semana do ano, debaixo duma tempestade de verão, depois de ter passado dois anos sumido? Não respondi Carlos, não respondi suas mensagens e nem abri suas cartas. Acreditei que nossa última conversa havia sido definitiva. Não, não estou magoado. Não mais. Só não entendo. Nunca entendi direito. Ted está latindo, deve estar com medo dos trovões. Espere um momento.

(16h16)
Pronto. Ele está mais calmo. O que é isso? Para mim? Um poncho! Claro que gostei. Acho que ficou um pouco grande. Nada que uns retoques não deem jeito. Ficou bom? Obrigado. Pare, já sei onde essas palavras doces irão levar.

(16h27)
Não entende? Você não pode simplesmente pedir pela volta de um passado que escolheu não viver! Dane-se se eu disse que não estava magoado. Você simplesmente sumiu. Entrou naquele carro rumo ao desconhecido como se o que tivesse ficado para trás fosse mero detalhe! Nós éramos. Mas não somos mais.  Não somos mais aqueles dois. Não faça isso comigo. Não. Deixe-me chorar. Me solte. Me... Carlos.

(21h44)
Você ainda tem o mesmo cheiro de tabaco. Teu hálito ainda exala menta. Está ficando com entradas na testa. O que foi essa cicatriz no braço? 

(21h56)
Apenas me diga se encontrou o que foi buscar. Voltou porque sabia que eu estaria aqui. É isso sim! Nisso concordamos. Foi um belo idiota! Aquela vida só existe nos livros que você lê. Fico aliviado que tenha percebido isso. Talvez estejamos começando a nos entender. Não, não me envolvi seriamente com ninguém. Só uns casos corriqueiros. Eu sai da revista. Estava vendendo minha alma por uma miséria. Estou terminando meu livro. De jeito nenhum! Está uma merda. Já recomecei umas cinco vezes e estou prestes a recomeçar a sexta. Outro dia te conto por cima do que se trata. Por hora não quero falar disso.

(22h18)
Sim, claro que coloco! Alguma música em especial? Aquela?! Não disse que era música de velho? Sim, você pode mudar de opinião...

(22h26)
“Let me photograph you in this light in case it is the last time. That we might be exactly like we were before we realized we were sad of getting old. It made us restless, it was just like a movie, it was just like a song when we were young”.
(22h30)
É verdade, uma das mais belas letras de músicas que já vi. No que estou pensando? Envelhecemos Carlos. Não somos mais aqueles dois jovens sonhadores. Não somos mais aqueles dois jovens capazes de apagar as marcas dum coração partido e recomeçar como se nada tivesse acontecido. Você voltou. A essa altura nenhum dano poderá ser cicatrizado. É um pouco assustador, não acha? Não faça promessas. Não tente consertar. Sem expectativas, sem grandes anseios. Exatamente como quando éramos jovens. Aqueles dois garotos das fotografias que você levou consigo. Ao menos a parte deles que o tempo ainda não apagou.

(02h43)
Perdi o sono e fiquei vendo você dormir. Parou de chover. Venha até a janela. Olhe como o céu está bonito. Aquela lua merece ser contemplada. Perdoo Carlos, eu perdoo.

domingo, 15 de novembro de 2015

Onde se escondem os finais felizes (?)

Ilustração: Éff (@coisailustrada)
“AH!”, exclamou ele fechando abruptamente o livro. Em seguida lançou o objeto violentamente contra a parede. A publicação de capa dura em vermelho vívido estatelou-se no chão, caindo aberta de bruços. Ele estava cansado. Cansado de servir de plateia para todas aquelas histórias de amor. Levantou-se da cama, começou a andar em círculos pelo quarto apertado. Gotas de suor se formavam em seu rosto. Claustrofobia líquida escorrendo por sua pele morena. Respirou fundo. Abriu a porta do quarto e andou em direção ao banheiro. Girou a trava da torneira e deixou que a água escorresse por alguns segundos. Juntou as mãos em forma de concha embaixo do jato e jogou o líquido gelado no rosto. Repetiu a ação. Ainda com o rosto molhado fitou seu reflexo no espelho. Longos segundos sem saber o que pensar. Uma confusão de ideias, sentimentos e meias palavras que faziam jus a seu cabelo. Uma bagunça. Havia envelhecido, é indiscutível. Por fora. Por dentro. Reparou nas marcas de expressão se formando. Nas olheiras que denunciavam as noites inquietantes. Reparou no vazio do olhar e no grande ponto de interrogação que podia enxergar em sua testa. Seria isso? É assim que se enlouquece? Secou o rosto. Voltou ao quarto, trancou a porta, deitou na cama. Cogitou acender um baseado. Desistiu por considerar que a mãe sentiria o cheiro e viria incomodá-lo com perguntas. Tudo menos perguntas. Sem questionamentos, por favor. Ficou deitado, seminu, olhando para o teto. Contemplando o vazio. Apreciando o silêncio. O que aconteceu? Era para ser simples. Como no livro em que acabara de ler. Como nos filmes que amava assistir. Como nos planos que levara tanto tempo para estruturar. Onde está? Onde se esconde a felicidade? Que se camufla tão bem que parece não querer ser encontrada. Onde está? Onde mora a felicidade? Que mais parece estar num passado inexistente que um futuro inesperado. Oh, fado! Vamos, responda! Onde está? Onde? Sentiu-se idiota por fazer perguntas para as quais sabia que ninguém tinha uma resposta. O que, afinal, esperava ouvir? Conteve corajosamente as lágrimas que ameaçavam cair. Respirou fundo em busca de algo mais significativo que o fôlego. A razão. Mais calmo, reparou no livro jogado no canto da parede. Levantou-se e foi até ele. Pegou-o delicadamente como quem pega um animalzinho machucado. Fechou o objeto e dirigiu-se à escrivaninha. Colocou-o no topo de uma pequena pilha no lado esquerdo do móvel. Lá. Naquele cantinho. No único lugar onde tinha certeza de que se escondiam os finais felizes. O resto lhe parecia mito. Tão lindo quanto distante. Tão essencial quanto impalpável. Tão... tão. Foi até o interruptor, apagou a luz do quarto e voltou para a cama. Colocou os fones de ouvido e deixou que uma balada lenta da Kelly Clarkson lhe colocasse para dormir. Pouco tempo depois, envolto pelo conforto do breu absoluto, caiu em sono profundo.


domingo, 18 de outubro de 2015

Quase estranho

Foto:  Hallucinate Up
Lá estava ele, a dois metros de mim. De costas, mas eu reconheceria aqueles cabelos bagunçados e aquela tatuagem na nuca em qualquer lugar. Lá estava ele, parecia atrasado. Pedia licença por entre a multidão e cavava um caminho escadaria acima. Eu estava bem atrás. Acompanhava-o com meus olhos e meus passos acelerados. Não queria alcançá-lo. Mas também não queria perdê-lo de vista. Tem sido assim há um longo tempo. 
Ele não virou uma vez sequer. De costas foi sendo tragado pela multidão. De costas se foi. Se perdeu. Não me viu, tenho certeza. Não falou comigo. Não perguntou como estou. Não reparou em meu corte de cabelo novo. Não quis saber da faculdade. Nem do que ando fazendo da vida. Não me viu.
Mas eu o vi, tenho certeza. Quis falar com ele. Perguntar como está. Reparar no mesmo corte de sempre. Saber da faculdade. E o que anda fazendo da vida. Eu o vi. O vi mas não fiz nada. Deixei que fosse.
E fiquei ali sentado. No banco da estação de metrô. Fitando o vazio. Desenhando todo o diálogo da cena que não existiu. O constrangimento. A felicidade. As dúvidas que persistem. O que o tempo ainda não apagou. Ele ajeitando o cabelo. Aquele sorriso de canto de boca. O olhar que eu retribuiria. Aquele que já valeria todas as conversas não tidas. Aquele. É aflitivo pensar que daqui em diante todas as melhores lembranças de terei dele serão de momentos que não existirão. É aflitivo pensar que preciso recorrer a um passado fantasioso para enxergar possibilidades de um futuro colorido. É aflitivo pensar...
Naquele momento fui tomado por um vazio que não caberia explicar em palavras. Saquei meu bloco de anotações e minha caneta. Só queria resenhá-lo. Cada mísero centímetro daquele corpo. Cada gesto involuntário. Cada mania. Gostos. Desgostos. Medos e prazeres. Num esforço de colocá-lo inteiro em versos só para ter certeza que o tempo jamais apagaria o que já foi tão meu. Tão belo. Tentando ser capaz de descrevê-lo minunciosamente só para ter guardada a lembrança de alguém que talvez nem tenha existido de verdade. De alguém que hoje é apenas mais um de costas na multidão. Alguém que conheço bem demais para tratar como desconhecido. Nos tornamos indiferentes. Eu, teu quase ninguém. Você, meu quase estranho.

Sendo assim... querido quase estranho, isso ainda é sobre você.